domingo, 31 de janeiro de 2010

Os Retornados

O contato entre o Brasil e Abomei foi estreito. A maioria dos escravos nagôs chegado à Bahia, foi embarcada em Ouidah. Portugueses, brasileiros e ex-escravos desempenhavam-se como negreiros na região, vivendo completamente adaptados à vida da costa.


Família de Retornados Brasileiros no Benin.

Neste caso encontrava-se Francisco Félix de Souza, ex-escravo brasileiro que viveu em Ouidah de l800 a l849. Comerciante que chegou a possuir imensas riquezas, proveniente do tráfico negreiro, é claro. Quando morreu foi enterrado de acordo com a cultura africana. Brasil e estas regiões entrelaçavam culturas distintas. Neste contexto, os retornados brasileiros foram um fenômeno que marcou, com a influência da cultura “baiana”, importantes regiões do golfo de Guiné. Nas insurreições escravas da Bahia, que aconteceram principalmente entre os anos de l807 a l837, participaram juntos, escravos, diversos africanos nagôs emancipados, etc., muitos negros livres foram deportados para a África pelas autoridades escravistas por terem participado daquele acontecimento. Africanos livres da mesma cultura foram expatriados como medida preventiva.

Com a abolição da escravatura, ou mesmo antes dela, ex-cativos embarcaram de volta para a África à procura de suas regiões de origem. Os africanos, ao chegarem ao continente negro, tinham alternativas limitadas: ou voltavam para onde haviam nascido, ou estabeleciam-se nas cidades da costa. A primeira solução apresentava muitas dificuldades. As comunidades do interior tinham conhecido, não raro, a guerra e a violência. Muitos destes homens haviam partido da África há dezenas de anos. Outros tinham nascido no Brasil. O interior era uma aventura incerta. Possivelmente alguns retornados voltaram às suas terras de origem e lá foram absorvidos sem delongas pelo meio social homogêneo e coeso do interior.

Outros formaram nas costa africana as comunidades dos retornados brasileiros, que fecundaram a cultura local com a experiência adquirida em terras brasileiras. Os retornados da costa dominavam a língua portuguesa, essencial ao trágico negreiro e o ioruba, alguns fizeram fortunas enviando cativos ao Brasil. Outros tinham habilidades técnica e exerciam atividades de pedreiros, alfaiates, barbeiro, ourives, carpinteiros, etc. A tradição aponta os retornados como os primeiros artesãos “europeus” de Lagos. Começaram a surgir na atual capital da Nigéria, sobrados luxuosos em estilo baiano colonial e foi difundido até entre o povo ioruba. Os europeus estabeleceram comércio com estes que retornaram do Brasil e os retornados por suas vez, mantiam comércio até com o Brasil.

Os Retornados, agora enriquecidos comerciantes, constituíam uma comunidade orgulhosa de suas origens. O ser “brasileiro” era um dado muito realçado, até hoje se encontram famílias nigerianas que se orgulham de sua origem “brasileira”, o português continuou como língua materna até l882, quando os ingleses permitiram somente o aprendizado de sua língua. Os hábitos alimentares baianos foram perpetuados.

Estas comunidades professavam, ao menos socialmente, a religião católico-romana. Confrarias religiosas e irmandades foram estabelecidas como no Brasil. Esta comunidade, junto com a dos nagôs oriundos de Serra Leoa, constituiu a primeira burguesia negra nigeriana. Um grande número de Retornados empregou-se na administração pública e dedicou-se à vida clerical, e preparavam-se para substituir os ingleses na administração nigeriana.

As esperanças políticas dos Retornados mostraram-se vãs. Os ingleses não se serviram dos “baianos” para seus projetos políticos. Preferiram como administradores colônias, os membros da aristocracia das comunidades do interior, a qual mantinha estreitos laços com populações a serem dominadas. Os retornados considerados brancos pelos africanos e negros pelos europeus, viveram uma verdadeira crise de identidade, frestados nos seus projetos de ascensão social e política. Muitos se voltaram para a negritude, para o estudo ioruba e para as religiões africanas. O declínio dos “brasileiros” era inexorável.

.:: Prefeitura de Barra Mansa


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► A estreita ponte entre Brasil e Gana

► Agudás, um pedaço do Brasil no Benin

► Libéria: um sonho americano

Um comentário:

  1. Francisco Félix de Souza, Xaxá, nâo era escravo mas sim esclavagista brasileiro português.. Ver Pierre Verguer, " Fluxo e Refluxo, do Tráfico de Escravos Entre o Golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos- dos séc. XVII a XIX" editora Corrupio, Salvador, 2002- 4ª ediçâo.-

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