sexta-feira, 16 de abril de 2010

As Origens da cultura do Zimbábue

A Civilização do Zimbabue é uma das comprovações mais importantes e misteriosas da antiguidade cultural da África.
Objeto de estudos diversos, as ruínas do Zimbabue comprovaram para todo o mundo a anuência de grandes civilizações na
África muito antes da chegada dos europeus.



Ruínas do Grande Zimbabwe.

As célebres ruínas do Grande Zimbábue, perto da moderna cidade de Masvingo (que já se chamou de Forte Vitória), simbolizam uma das mais notáveis transformações. Elas são famosas tanto pela excelência de sua arquitetura quanto pelas teorias extravagantes que cercam sua origem. Hoje, todos os estudiosos sérios consideram que o Grande Zimbábue foi uma realização essencialmente africana, construído com material e segundo princípios arquitetônicos desenvolvidos durante muitos séculos. Por outro lado, porém, as causas últimas para o surgimento da organização econômica, política e religosa que deu origem a este sítio, e outros análogos existentes entre os rios Zambeze e Limpopo, permanecem envoltas em mistério.

As descobertas arqueológicas e a ocupação mais antiga

Os vestígios da ocupação do Grande Zimbábue no começo da Idade do Ferro limitam-se aos estratos inferiores da longa seqüência cultural que aparece na colina chamada Acrópole (Acropolis Hill), que domina o Grande Cercado (Great Enclosure), certamente a mais impressionante das construções do Grande Zimbábue, e a mais uns restos de cerâmica espalhados pelo vale que fica abaixo. O nível da Acrópole correspondente à Idade do Ferro Antiga foi datado de tempos anteriores ao século IV, não se podendo afirmar que o estabelecimento então existente no Grande Zimbábue fosse realmente significativo. Com toda a probabilidade, os vales separando essas colinas bem irrigadas proporcionavam, na expressão de Peter Garlake, "bons terrenos de caça e um campo aberto, com solos leves e fáceis de cultivar".
Foi somente por volta do século X ou XI - a data ainda é incerta - que povos da Idade do Ferro Recente instalaram-se no Grande Zimbábue. Pouco se sabe a respeito, já que foram encontradas poucas áreas ocupadas por eles além da implantação gumanye no Grande Zimbábue. Sua cerâmica não se assemelha à da Idade do Ferro Antiga, e já foi aproximada, por alguns, à de Leopard's Kopje, embora existam diferenças notáveis entre elas.
A tradição gumanye ainda é mal conhecida, e assim permanecerá até que sejam encontrados e escavados outros sítios do mesmo tipo. Os portadores dessa tradição instalaram-se no Grande Zimbábue antes que as grandes muralhas deste local estivessem completadas; supõe-se que representavam outra tradição cultural da Idade do Ferro Recente, próxima da cultura de Leopard's Kopje, que tem vários traços em comum com Gumanye. Mas, seja qual for a realidade de Gumanye, o fato é que, por volta do século XII, a cultura deste povo sofre nítida transformação. A cerâmica melhorou de acabamento, fabricaram-se figuras humanas de argila, e aumentaram muito as importações de contas de vidro e outros objetos. As construções de pau-a-pique tornaram-se muito mais sólidas, começaram a proliferar os adornos de cobre, bronze e ouro, e fizeram-se comuns, no Grande Zimbábue, muros e muralhas de pedra.

Uma evolução paralela a esta se constata, pelo menos parcialmente, em sítios de Leopard's Kopje, como o de Mapela, já citado. Por volta de 1300, já estavam lançadas as bases para um Estado poderoso e influente - um Estado cujo centro encontrava-se no Grande Zimbábue e que dominava uma vasta parte da Mashonalândia central e meridional. Parece fora de dúvida que esse Estado, na sua origem, compartilhasse numerosas tradições culturais com os povos de Leopard's Kopje, e é muito provável que essa identidade fundamental também se estendesse ao uso da mesma língua, o shona. Citemos, novamente, Peter Garlake:
"Mais ou menos desde o fim do século XII, a diversificação, a expansão e a acumulação de riquezas, assim como uma crescente especialização social, econômica e funcional que resultou destes fatores, haviam ocorrido nestas .duas culturas, a tal ponto que se tomou possível a construção de grandes estabelecimentos que, como áreas delimitadas nos sítios arqueológicos, podiam ser utilizados, para funções definidas, por alguns grupos ou agrupamentos de populações".
É possível que o Grande Zimbábue tenha sido um desses estabelecimentos. Antes de descrevermos o Grande Zimbábue propriamente dito, convém examinarmos mais de perto algumas das hipóteses aventadas para explicar a formação do Estado que se ergueu à sua volta. Duas grandes teorias foram propostas com esta finalidade. A primeira, formulada pelo historiador Donald Abraham, considera os Shona como imigrantes do final do primeiro milênio da era cristã, que não somente teriam introduzido na região as técnicas de mineração e outras inovações tecnológicas, como também teriam trazido consigo seu próprio culto dos ancestrais. Isso os levou a fundarem santuários, dos quais o principal foi construído numa colina chamada Mhanwa, e recebeu o nome de dzimba dzemabwe (casas de pedra). Segundo Abraham, os dirigentes dos Shona souberam, graças a astuciosas manobras políticas, exercer influência hegemônica sobre uma confederação bastante flexível, com os chefes vassalos lhes pagando tributo, em marfim e ouro em pó. Os negociantes árabes da costa da África oriental haviam estabelecido relações com essa poderosa aliança e valiam-se dela para expandir o comércio do ouro e do marfim. Mas o poder central do Estado estava em mãos dos chefes e sacerdotes que controlavam o culto do Mwari e os complexos rituais de sacrifícios aos ancestrais que o completavam, servindo assim de intermediários entre o Mwari e o povo. Essa hipótese religiosa - como é chamada - baseia-se em pesquisas das tradições orais dos Shona, cujos pormenores, porém, ainda não foram publicados.
Segundo a outra grande hipótese, 0 surgimento do Estado de Karanga deve-se, sobretudo, à intensificação das trocas comerciais. Aumentou muito, no século XIV, o uso no Grande Zimbábue de contas de vidro e outros objetos importados, como o vidro sírio, a faiança persa e o celadon chinês, sinais que evidenciam grande expansão do comércio. Objetos de ouro e cobre também proliferam no Grande Zimbábue, pois a exploração destes minérios generalizara-se ao sul do Zambeze. Na mesma época, a cidade árabe de Kilwa, no litoral, conheceu rápido avanço econômico, sendo provável que tal prosperidade se devesse à expansão do tráfico de ouro e marfim mantido com a região de Sofala, na costa de Moçambique, que durante séculos foi o entreposto litorâneo para a venda de ouro proveniente do sul da África central. Talvez valha a pena notar que,- ao visitar Kilwa, em 1331, o viajante árabe Ibn Battuta mencionou o comércio aurífero de Sofala, originado em "Yufi, na terra dos Limis", situada no interior, a um mês de viagem de Sofala.
Esta hipótese comercial baseia-se no aumento das exportações e importações, e pressupõe que, numa sociedade organizada por grupos de linhagem com um mínimo de estratificação social, o chefe deverá ser o homem mais rico. Parte de sua riqueza, porém, é redistribuída aos demais membros da sociedade, por meio de funções cerimoniais, casamentos, funerais etc. A medida que se ampliam as trocas comerciais, no entanto, a riqueza total acumulada e não-redistribuída à sociedade aumenta, levando a uma concentração acentuada da opulência e da autoridade política em mãos de poucos indivíduos, situação esta que, a longo prazo, pode ser socialmente nefasta. Um rico potentado poderá, então, pagar a indivíduos para que executem obras públicas, ou ainda, por uma simples decisão política, forçar uma população a trabalhar para o Estado segundo um sistema de corvéias, adotado outrora, por exemplo, entre os Lozi da Zâmbia. Assim, no caso do Grande Zimbábue, a crescente riqueza dos chefes teria favorecido uma maior redistribuição da mesma, a concentração da população num centro comercial importante e a organização das forças de trabalho para que se construíssem as enormes muralhas do Grande Cercado e da Acrópole. A hipótese comercial assenta-se basicamente na idéia de que a criação do Estado teve como causa principal a expansão do comércio na costa oriental, e na convicção de que o poder econômico é idêntico à autoridade política - suposição que pode ser válida apenas parcialmente.
Pressupõe, também, que a construção das muralhas de pedra tenha exigido considerável mão-de-obra, o que tampouco é evidente, se julgarmos o caso partindo de análises efetuadas em outras regiões.

Poder político e econômico na formação do Estado do Grande Zimbábue

As duas hipóteses dão bem pouca importância às realidades de uma agricultura de subsistência e dos complexos mecanismos de decisão que controlam, no sentido mais amplo possível, a orientação global da evolução social. O Estado do Grande Zimbábue nasceu muito antes da tradição oral que lhe sobreviveu; tudo o que dele sabemos deve-se à investigação arqueológica ou a uma informação lingüística bastante genérica. Os arqueólogos estabeleceram que os povos de língua shona podem ter sido os responsáveis pelas tradições da Idade do Ferro Recente surgi das entre o Zambeze e o Limpopo. Por volta do século XIII, as tradições de Leopard's Kopje e de Gumanye apresentavam sinais de considerável elaboração, que se devia tanto à extensão dos contatos comerciais quanto a uma maior centralização da autoridade política. Em algumas regiões, o aumento sem precedentes da densidade demográfica pode ter favorecido o aprimoramento dos métodos empregados na agricultura itinerante, adotando-se provavelmente técnicas de desmatamento e de queimada mais eficazes, que permitissem períodos mais longos de repouso da terra entre as semeaduras. Mesmo que tenha havido certa concentração demográfica no Grande Zimbábue e outros centros, a maior parte da população se manteve disseminada nas aldeias menores, que se instalavam e se transferiam segundo os imperativos do nomadismo agrícola e da pecuária. Contudo, quando um centro maior, como o Grande Zimbábue, atraía uma população rural mais densa, as conseqüências a longo prazo teriam sido graves, no tocante à fertilidade dos solos, ao uso excessivo dos pastos e à degradação do meio ambiente.

As sociedades africanas da Idade do Ferro que viviam da agricultura de subsistência eram basicamente auto-suficientes, embora certas matérias-primas, como o minério de ferro ou as madeiras das choupanas, fossem obtidas a uma distância razoável. Dispunham de pouco ou nenhum incentivo para praticar o comércio de longa distância, exceto certas motivações religiosas ou econômicas - e é difícil identificar estas últimas numa comunidade aldeã funda- mentalmente autárquica. Além disso, uma coisa é sentir estas motivações em escala limitada, outra coisa, bem diferente, é unificar uma população rural dispersa sob uma tutela religiosa, política ou comercial.
Se é evidente que a demanda de matérias-primas estimulada pelo comércio costeiro da África oriental suscitou necessariamente novas iniciativas econômicas, esse comércio, isoladamente, não bastaria para reunir o povo sob uma única autoridade política ou religiosa. Para que tal evolução se processasse, era preciso não apenas que um pequeno número de famílias tivesse o entendi- mento das coisas religiosas ou políticas, mas também que, conscientemente ou não, a sociedade no seu conjunto optasse por uma organização social e política mais hierarquizada, mesmo que os interessados não tivessem plena consciência de tal processo, na época. É um erro pensar a origem do Grande Zimbábue, ou de qualquer outro reino africano, em termos de motivação puramente religiosa ou comercial. O mais correto é entender que ambos os fatores, assim como muitos outros que as escavações arqueológicas mal permitem identificar, exerceram importante papel nas sociedades da Idade do Ferro, quando as perspectivas políticas e econômicas destas se ampliaram do espaço da aldeia para um horizonte mais largo.

Sejam quais forem as causas profundas da expansão do Grande Zimbábue, não há dúvida de que se trata de monumento impressionante. O sítio está dominado pela Acrópole, longa colina de granito coberta de enormes matacões. Com o correr das gerações, os moradores foram unindo esses matacões com muros de pedra, formando assim pequenos cercados e passagens estreitas. O cercado da ponta ocidental é o maior de todos, rodeado por espessa muralha de pedras sem arrimo. A análise estratigráfica revelou a longa seqüência de ocupação na Idade do Ferro Recente, fornecendo, assim, elementos para dividir a história do Grande Zimbábue em, pelo menos, três fases. A ocupação mais intensa começou por volta do século XI, mas nenhum muro de pedra foi construído até o século XIII, quando as pequenas cabanas de pau-a-pique dos primeiros tempos foram substituídas por casas de barro mais espaçosas. O muro de arrimo, em pedra, do cercado ocidental foi construído pela mesma época, quando aparecem mais restos de objetos importados nos depósitos encontrados. Foi nos séculos XIII ou XIV, também, que se ergueram as primeiras construções no vale que fica abaixo da Acrópole.
O Grande Cercado, com suas muralhas maciças de pedras sem arrimo, foi construído pouco a pouco durante o século seguinte. A muralha que o circunda tem uma altura média de 7,30 m, 5,50 m de espessura na base e 1,30 a 3,60 m no alto. A muralha propriamente dita tem uma parte central em pedra bruta, contida de ambos os lados por pedras dispostas horizontalmente sem argamassa. Está decorada com motivos de aspas (em ziguezague), num comprimento de 52 m. No seu interior, há outra muralha, inacabada, que evidentemente foi substituída pela que existe atualmente. Entre as duas muralhas, uma estreita passagem leva a uma torre cônica, admiravelmente bem construída, que domina o Grande Cercado. Não se sabe qual o significado da mesma. O Grande Cercado propriamente dito está dividido numa série de pequenos cercados, nos quais se encontram os alicerces de casas razoavelmente grandes de pau-a-pique. Pode-se supor que essa construção impressionante e de. grande significado político servisse de residência aos governantes do Grande Zimbábue.
Os sedimentos do Grande Cercado e os estratos superiores da Acrópole continham muitos enfeites de ouro e cobre, além de tigelas e esculturas de fina qualidade feitas em pedra-sabão, retirados pelos primeiros caçadores de tesouros. Foram desenterradas também grandes quantidades de Cotas de vidro importadas, bem como porcelana e vidro de origem chinesa, persa e síria datando até mesmo do século XIV. É evidente que, por essa época, o comércio costeiro da África oriental já havia penetrado profundamente no interior do continente. O Grande Zimbábue tornara-se importante centro comercial, e supõe-se que seus soberanos exercessem um invejável monopólio sobre as atividades de troca. Afinal de contas, era vantajoso para o negociante estrangeiro, ou seu agente, trabalhar em cooperação com os dirigentes políticos do interior, o que garantia tanto sua segurança quanto o maior lucro possível. Aliás, numa situação em que os mineiros e a mineração estavam sob o controle político do Grande Zimbábue, ligados ao soberano por tributos e elos religiosos, os comerciantes não tinham outra opção. É difícil, todavia, avaliar em que medida os árabes, que dominavam o comércio costeiro, teriam exercido papel político significativo nos negócios do Zimbábue, ou influenciado a arquitetura e a tecnologia desse Estado africano.
Uma escola de pensamento atribui aos árabes papel proeminente no projeto do Grande Cercado, compara a torre cônica com as mesquitas da África oriental, e afirma que as fiadas de pedras das muralhas do Grande Zimbábue são muito diferentes das construções habituais de pau-a-pique existentes nas aldeias shona. Contudo, devemos assinalar que a arquitetura do Grande Zimbábue é simplesmente a extensão lógica dos grandes cercados e bairros reservados aos chefes, construídos com palha, barro e madeira nos outros Estados africanos, com a única diferença de que, no nosso caso, utilizou-se pedra. Foi usada por ser mais durável, e porque havia grande quantidade de granito, esfoliado em camadas naturais de 50 a 100 cm de espessura, nos arredores do Grande Zimbábue. Seus construtores puderam obter número ilimitado de blocos aproveitáveis, que mal precisavam talhar, servindo-se da esfoliação natural do granito em camadas, ou acelerando este processo pelo emprego do fogo e da água.
Com exceção da torre cônica, estrutura excepcional de significado desconhecido, nada existe na arquitetura do Grande Zimbábue que fuja à prática africana. Na verdade, as muralhas sem apoio, os terraços e o trabalho decorativo da pedra foram usados em numerosos outros sítios contemporâneos e mesmo posteriores ao Grande Zimbábue. O que ressalta ao visitante é a dimensão das ruínas, que suscita tantos mitos sobre sua suposta Antigüidade. É praticamente impossível discernir uma influência inegavelmente árabe, quer na construção do Grande Zimbábue, quer no conjunto de sua cultura. Seria engano ver, nos dirigentes desse Estado, marionetes que teriam sido manipuladas pelos árabes, seguindo planos destes. Nem é provável, a despeito das alegações em contrário, que tenha havido mais do que um pequeno grupo de árabes ou de seus agentes residindo na esfera de influência do Grande Zimbábue. O comércio de longa distância deve ter sido, na melhor das hipóteses, esporádico, consistindo em visitas regulares, possivelmente sazonais.

A expansão do Estado do Grande Zimbábue e a sua hegemonia na região

O caráter excepcional do Grande Zimbábue deve-se apenas às suas dimensões, porque se trata da maior entre umas 150 ruínas existentes na região granítica situada entre os rios Zambeze e Limpopo. Nas suas proximidades, bem como na Mashonalândia, há outras ruínas, que apresentam de um a cinco cercados, rodeados pelo menos parcialmente de muralhas sem arrimo e tendo no seu interior cabanas de pau-a-pique. A regularidade de sua alvenaria segue o mesmo estilo do Grande Zimbábue. As ruínas que já foram exploradas às vezes continham objetos de ouro, braceletes de fio de cobre, contas de vidro, assim como braseiros e fusos com discos perfurados, característicos da cultura do Grande Zimbábue. Nas ruínas de Ruanga e Chipadze, revela-se a importância do gado. Cinco das ruínas já escavadas permitiram estabelecer uma cronologia, sugerindo que todas elas tenham sido construídas e ocupadas entre o começo do século XIV e o fim do XV. Algumas parecem datar até do século XVI. Todos esses sítios são de dimensão menor, porque se destinavam a pequenas populações. Habitualmente, encontram-se perto de colinas nas quais a pedra é abundante, e parecem pequenos demais para terem sido entidades economicamente auto-suficientes; provavelmente foram construídos por mão-de-obra de aldeias vizinhas, que viviam da agricultura itinerante praticada na savana. Peter Garlake insistiu no fato de que nenhuma destas aldeias sem muros apresenta objetos do tipo que se encontra nas ruínas:
"Os estabelecimentos que forneciam tal mão-de-obra devem ter conhecido uma cultura material que parece não ter relações com a das ruínas, embora nada indique, nestas, a existência de outros grupos culturais."
E prossegue, afirmando que a assistência fornecida assumia a forma de tributos ocasionais, o que por enquanto não passa de hipótese.
Nas ruínas de Nhunguza, encontrou-se uma única cabana, muito espaçosa, dividida em três cômodos. Um destes podia acolher grande número de pessoas, outro continha apenas um assento, o terceiro era "uma câmara completamente separada, que devia servir para a guarda de objetos de especial valor, incluindo (. . .) algo que devia ser um monolito assentado num pedestal de pedra entalhada".
Essa construção nada usual podia muito bem ser a sede em que reinava uma proeminente autoridade religiosa, cujo poder explicaria a existência desse cercado singular e constituiria a força que unificava o Estado do Grande Zimbábue. Tem-se a impressão de uma autoridade política e religiosa extremamente poderosa, incontestada, cujo domínio sobre uma população rural dispersa pelo país baseava-se em alguma espécie de crença unificadora, compartilhada por todas as famílias, nos poderes do Mwari divino ou de outra divindade. O comércio de longa distância, por mais regular que possa ter sido, nunca constituiria mecanismo igualmente eficaz, pois somente afetava uma parte menor da população total.

As fronteiras do Estado do Grande Zimbábue ainda se encontram mal-definidas, embora se saiba que sua base situava-se no centro de Mashonalândia. Algumas ruínas semelhantes às do Grande Zimbábue encontram-se na atual Matabelelândia, devido à infiltração de povos do Grande Zimbábue nessa região que era ocupada pela cultura de Leopard's Kopje. No entanto, somente após o declínio do Grande Zimbábue, no século XV, a Mashonalândia adquiriu certa preponderância em matéria de empreendimentos políticos e comerciais; essa questão, porém, escapa ao quadro do presente capítulo.

As relações comerciais com a costa da África oriental

A influência do Grande Zimbábue e de seus estabelecimentos tributários fazia-se sentir muito além das fronteiras imediatas, e relativamente próximas, do próprio Estado. A prosperidade de Kilwa, na costa da África oriental, seguia de perto as flutuações do comércio de ouro com Sofala. Já no século X, o geógrafo árabe al-Mas'udi mencionava Kilwa e o comércio aurífero nos seus escritos. Quatro séculos mais tarde, Ibn Battüta descrevia a mesma Kilwa como uma das mais belas cidades do mundo, uma aglomeração cuja prosperidade baseava-se no comércio de ouro com o sul. Sem a menor dúvida, a riqueza dos senhores do Grande Zimbábue cresceu e declinou acompanhando as fortunas do tráfico costeiro. A própria Kilwa conheceu vicissitudes comerciais. Atingiu o ápice da prosperidade no século XV, quando se empreendeu a reconstrução da famosa Grande Mesquita, com domos e abóbadas tão bem trabalhados. Um século depois, porém, Kilwa, a costa da África oriental e até o Estado do Grande Zimbábue estavam em plena decadência. Quando os portugueses chegaram a Sofala, o comércio costeiro não passava de uma sombra do que já tinha sido. Assim, apesar do seu isolamento, o Grande Zimbábue havia contribuído, através dos contatos comerciais e do ouro que produzia, para a prosperidade e crescimento econômico não somente da costa da África oriental, como de terras muito mais distantes.
O funcionamento do comércio costeiro é mal conhecido - poucos sítios comerciais do interior já foram investigados ou escaparam ao interesse insidioso dos primeiros caçadores de tesouros. Nos séculos XIV e XV, porém, houve atividade comercial notável ao norte da Mashonalândia e no vale do Zambeze, cujos vestígios ensejaram magníficas descobertas arqueológicas. Essa região era povoada desde a Idade do Ferro Antiga, que durou, ali, até o fim do primeiro milênio da era cristã. Entre os séculos XII e XIV, o norte da Mashonalândia foi ocupado pelos fabricantes da cerâmica de Musengezi, que praticavam uma agricultura de subsistência e mantinham um mínimo de contatos comerciais. Pensa-se que falavam o shona. Embora nos seus estabelecimentos mais tardios sejam encontrados com certa freqüência objetos adquiridos comercialmente, a cultura de Musengezi parece estar a uma enorme distância da riqueza dos seus vizinhos meridionais do Grande Zimbábue.
O mesmo não se pode dizer, porém, da extremidade noroeste da Mashonalândia nem da parte inferior do vale do médio Zambeze, onde existiram estabelecimentos maiores, nos quais o trabalho e o comércio do cobre assumiram grande importância. O sítio de Chedzugwe, no fértil distrito de Urungwe, cobria uma superfície de uns 30 hectares de prados da melhor qualidade; a abundância de ossos de gado e de outros animais comprova o destaque que tinham, nas suas atividades econômicas, a pecuária e a caça. Mas a metalurgia do cobre e do ferro também estava longe de ser secundária, já que ambos os minerais achavam-se em quantidade na região. O cobre era fundido em lingotes padronizados em dois pesos fixos; faziam-se braceletes com fios de cobre, e era corrente o uso de ligas de estanho. Também se conheciam os têxteis, e se fabricava cerâmica de excelente qualidade, cujas tigelas e copos tinham um acabamento e delicadeza de decoração praticamente sem rivais no mundo.

A arqueologia e os limites da influência do Grande Zimbábue

Os habitantes de Chedzugwe mantinham relações não apenas com o Grande Zimbábue, como também com o vale do Zambeze. Seus belíssimos lingotes de cobre e suas cerâmicas tão delicadas foram encontrados até no sítio isolado de Ingombe Ilede, onde, em 1960, realizaram-se marcantes descobertas, que nos ensinaram alguma coisa sobre os antigos mecanismos de comércio, tanto local quanto de longa distância. Ingombe Ilede fica no alto de uma colina baixa, na planície coberta pelo Zambeze em suas inundações, a alguma distância da margem norte do rio. Hoje ocupado por uma estação de bombeamento, o sítio da Idade do Ferro foi descoberto quando se construíam grandes reservatórios de água. Onze sepulturas ricamente decoradas encontravam-se no alto de Ingombe Ilede, sendo recuperadas - felizmente - antes de se completar a construção dos reservatórios. Deitados bem próximos uns dos outros, os esqueletos estavam cercados por uma espantosa coleção de objetos locais e importados. Um deles, ricamente adornado, portava um colar de conchas do gênero Conus - conchas marinhas da África oriental tradicionalmente associadas ao estatuto de chefe - bem como colares e fieiras de ouro, ferro, cobre e contas de vidro importadas, que rodeavam o pescoço e a cintura. Outra concha do gênero Conus e dois amuletos de madeira - que poderiam estar relacionados com o mundo islâmico - foram encontrados à altura da cintura, na mesma sepultura. Lingotes de cobre em forma de cruz, gongos de ferro, enxadas de uso cerimonial e conjuntos de ferramentas utilizadas para fabricar fios de metal repousavam junto à cabeça ou aos pés de vários esqueletos. Seus membros estavam rodeados de manilhas de fios de cobre, que possivelmente haviam sido fabricadas com as ferramentas encontradas junto aos corpos. O ácido cúprico dessas manilhas preservou várias camadas de tecidos de algodão ou de casca de árvore, provavelmente pertencentes às roupas de seus proprietários. Nos estratos superiores de Ingombe Ilede, foi encontrado grande número de fusos com discos perfurados; portanto, pelo menos uma parte dos panos era tecida localmente.
O mais notável nessas sepulturas é que, excetuando-se a cerâmica, quase todos os objetos ali encontrados eram artefatos ou materiais obtidos pelo comércio de longa distância. Não existia nenhuma jazida importante de minério de cobre, ouro ou ferro nessa parte do vale do Zambeze, embora fosse fácil obter tanto o sal quanto as presas de elefante, duas mercadorias essenciais para o comércio, das quais a primeira destinava-se ao consumo doméstico. Os lingotes de cobre são idênticos aos de Chedzugwe, e a cerâmica de bela aparência encontrada nas sepulturas é virtualmente a mesma que existe no sítio do distrito de Urungwe. Em Ingombe Ilede, porém, existem contas de vidro em maior número. A primeira vista, nada parece justificar que um lugar como Ingombe Ilede, onde não havia jazida alguma de minerais, tomasse parte no comércio de longa distância. Mas a explicação pode estar nos abundantes depósitos de sal do rio Lusitu: durante a Idade do Ferro, os pães de sal constituíam mercadoria muito valorizada, especialmente nas trocas locais. O controle que exerciam sobre as salinas pode ter levado os habitantes de Ingombe Ilede a manter contatos com outras comunidades, que viviam nos planaltos ao norte e ao sul do Zambeze; estas dispunham de metais preciosos que podiam trocar pelo sal, e que por sua vez serviriam ao povo de Ingombe Ilede para adquirir artigos de luxo, no comércio com a costa oriental do continente. O papel de intermediários atribuído aos habitantes de Ingombe Ilede não passa de hipótese, pois é igualmente plausível supor que tanto os bens de luxo como o cobre, o ouro e o ferro fossem trocados diretamente por sal do rio Lusitu, em transações efetuadas com Urungwe e o Grande Zimbábue.
Existe muita incerteza acerca da data das sepulturas de Ingombe Ilede, pois as tentativas de datação dos esqueletos pelo carbono-14 defrontaram-se com graves problemas. Sabe-se que existia uma grande construção de pau-a-pique no ponto mais elevado da aldeia, mas seus alicerces já haviam sIdo destruídos, antes do início das escavações arqueológicas, pelos construtores dos reservatórios de água. As sepulturas com objetos de ouro encontravam-se sob os alicerces dessa cabana, que pode ter sido destruída intencionalmente no decorrer dos ritos funerários. Os esqueletos pertencem aos últimos anos da existência de Ingombe Ilede, aldeia habitada, talvez de maneira intermitente, desde o século VII. Pelo final do primeiro milênio, o local foi abandonado pelos seus moradores, camponeses que praticavam a agricultura de subsistência e mantinham contatos com os agricultores do planalto de Batoka, mais ao norte. Ingombe Ilede certamente não foi um centro comercial durante os primeiros séculos de sua história. Mas, por volta de 1400, o local voltou a ser ocupado brevemente, ocasião em que foram realizados os sepultamentos com seus objetos de ouro, nas fossas de cinza fina do alto da colina. É a este último período de ocupação que se podem atribuir os objetos importados, o ouro, o cobre e a cerâmica de melhor qualidade encontrados em Ingombe Ilede. O Grande Zimbábue conhecia, então, o apogeu de sua importância e prosperidade, e os árabes exerciam firme controle sobre o comércio da costa oriental. Contudo, mesmo que Ingombe Ilede tenha sido um centro comercial, a riqueza e lucros provenientes dessas trocas certamente estariam concentrados nas mãos de poucas pessoas - as que estão enterradas no alto da colina. Nos limites meridionais desse sítio, encontraram-se mais 31 sepulturas, contemporâneas dos esqueletos recobertos de ouro exumados no topo da colina. Somente alguns desses corpos enterrados às pressas portavam algum modesto enfeite contas de vidro, conchas de água doce ou um bracelete de cobre. Parece, pois, fora de questão que existia certa estratificação social em Ingombe Ilede.
A aldeia de Ingombe Ilede marca, provavelmente, o limite setentrional da atividade comercial que ligava os vales do Zambeze e do Limpopo, limite este que reflete as idiossincrasias do comércio costeiro e a complexidade das relações políticas do Estado do Grande Zimbábue com seus vizinhos. Até o presente momento, foi-nos impossível vincular essas sepulturas mais ricas de Ingombe Ilede a qualquer grupo histórico conhecido, embora certas referências existentes em documentos portugueses do século XVI excitem nossa curiosidade. Entre 1506 e 1515, Antônio Fernandes partiu de Sofala em duas viagens de exploração do interior. Visitou os chefes locais e descreveu como funcionava o comércio do ouro. Contou que ouviu falar de um grande rio ao norte do reino do Monomotapa, no qual o povo dos "Mobara" trocava cobre por tecido, cruzando o rio em canoas para comerciar com os árabes. De modo geral, aceita-se que haja alguma ligação entre Ingombe Ilede e esses Mbara do século XVI.

O final do século XV: mudanças e transformações

Quando o Estado do Grande Zimbábue está no apogeu, o sul da África central acha-se no limiar da documentação histórica e da tradição oral. Pelo final do século XV, o Grande Zimbábue começa a ser abandonado por boa parte de sua população. As forças associadas ao poder econômico e político deslocaram-se para o sul e para o oeste, sob a chefia do poderoso clã rozwi. As tradições orais registram o surgimento de um soberano hereditário, o mwene mutapa (senhor do saque), sendo o primeiro Mutota. Seu filho Mutope expandiu o território do mwene mutapa para o norte, transferindo sua capital para uma região setentrional, longe do Grande Zimbábue. Posteriormente, por volta de 1490, as partes meridionais do reino romperam com a autoridade central, constituindo, sob a liderança de Changamire, um poderoso Estado separado. O mwene mutapa só conseguiu conservar uma pequena faixa de território, ao longo do Zambeze, que se estendia até o oceano Indico. Seu domínio acabou caindo sob a influência portuguesa, no decorrer dos séculos XVI e XVII.
Mas esses acontecimentos políticos não bastam para explicar por que um sítio tão importante quanto o Grande Zimbábue foi abandonado de maneira tão rápida e inesperada. Práticas religiosas e atividades econômicas idênticas às suas eram seguidas em outros lugares. A população continuou vivendo da agricultura de subsistência baseada no nomadismo agrícola. Talvez esteja neste ponto a razão para o abandono do Grande Zimbábue: é possível que os campos circundantes tenham se tornado incapazes de manter sequer um circuito disperso de pequenas aldeias, e menos ainda a complexa superestrutura da população não-agrícola residente no próprio Grande Zimbábue. A intensificação da agricultura só pode resultar da irrigação ou fertilização artificial do solo. Nenhum desses métodos era praticável na savana arborizada que cercava o Grande Zimbábue. Quando as terras cultiváveis esgotaram-se, só restou uma coisa a fazer: procurar terras novas para desmatá-las e iniciar novas lavouras e, desta maneira, alimentar a população existente. Bastava que se diminuíssem os períodos de descanso da terra, ou que se deixasse entrar. o gado (de menor ou maior porte) nos pastos onde a grama estava se recompondo, para interromper os ciclos agrícolas vitais -, o que inevitavelmente resultava na degradação do meio ambiente, no desgaste das pastagens, e, finalmente, na migração de largos contingentes de população para novas áreas cultiváveis. Quando isto aconteceu nas cercanias do Grande Zimbábue, o mwene mutapa precisou partir, por mais sagrado que se considerasse seu local de residência, ou por imponentes que fossem as muralhas de pedra que definiam os seus cercados. Parece muito provável que os desequilíbrios políticos do final do século XV tenham estado estreitamente ligados às limitações ambientais que sempre ameaçam as estruturas políticas ou religiosas (por complexas que sejam) baseadas na agricultura de subsistência e numa população rural dispersa.

Por volta de 1500, o sul da África central tinha passado por grandes transformações políticas e econômicas. Um certo grau de unidade política e de estratificação social havia nascido entre os rios Zambeze e Limpopo, favorecida pela intensificação do comércio de longa distância e pelas solicitações dos mercados mais remotos, e também pela evolução interna das próprias sociedades africanas, a concentração da riqueza em mãos de poucos, a centralização do poder político em nível superior ao da aldeia, a criação de um refinado aparelho estatal no qual os assuntos seculares e religiosos dependiam da pessoa de um chefe a quem se atribuía ascendência divina. Estas transformações, especificamente africanas, ocorreram também em muitos dos Estados mais fortes da África central e de outras partes do continente. Mas sua viabilidade exigia a conservação de fortes redes comerciais e de um sistema de agricultura de subsistência suficiente para alimentar a população. Estes fatores revelaram-se, numa análise histórica, determinantes para o crescimento e a prosperidade do Estado do Grande Zimbábue, e de seu sucessor, o Estado Rozwi. E, por trás da ascensão e queda de tantas chefarias maiores e menores, o fio condutor da vida na Idade do Ferro, que nos é confirmado por muitas descobertas arqueológicas, continuou a depender da agricultura e de sua economia de subsistência, baseada nas diversas lavouras, na pecuária e na criação de pequenos animais.

Fonte: Blog Africanidades

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