sexta-feira, 26 de março de 2010

Gana: Senhores do ouro

Mineradores e com autonomia no deserto do Saara, os habitantes do reino de Gana tornaram-se a mais poderosa civilização da África por mais de 400 anos




Os 20 mil habitantes de Koumbi Saleh viviam numa cidade poderosa do continente africano no começo do século 11. Nela se presenciava um entra-e-sai constante de viajantes, que a usavam como entreposto comercial. Mercadores negociavam em cada esquina. Artesãos espalhavam-se pelas ruas. Muçulmanos conviviam com os povos nativos, os soninquês. Duas vezes por dia, Koumbi Saleh era cortada por tambores reais, anunciando a passagem do rei, adornado com belas correntes e braceletes dourados, cercado de servos. A principal cidade do reino de Gana, na África, respirava ouro.

O antigo Gana, que se desenvolveu numa África livre dos colonizadores, não tem a ver com o atual país africano. A área de influência do reino ocupava partes dos atuais Mali e Mauritânia. Embora não tivesse saída para o oceano, foi às margens de um mar que ele se desenvolveu. Um mar de areia: o Saara. Intransponível até o século 3, só quando pôde ser cruzado o Saara permitiu que muçulmanos do norte chegassem à África negra, mais ao sul, onde encontraram povos nadando em ouro. Foi a partir daí que o continente viu prosperar uma de suas maiores civilizações.

Conquista do norte

Foi um animal que permitiu que o homem se embrenhasse no deserto. Graças ao camelo, originário do Oriente Médio e introduzido no continente africano, os povos negros puderam ter contato com o Magrebe, região ao norte, que abrange os atuais Marrocos, Saara Ocidental, Tunísia e Argélia. Mesmo assim, atravessar o Saara exigia esforço. A viagem demorava entre um e quatro meses, com períodos de até 14 dias sem encontrar água alguma.

Apesar da dificuldade, alguns grupos que habitavam a região desde o primeiro milênio antes de Cristo se espalharam pelo deserto – eram os berberes, cuja principal atividade era o pastoreio. Vivendo no Saara, tinham suas bases nos oásis, áreas isoladas com vegetação e água. Nos meses secos migravam para o Sael, trecho abaixo do deserto, com índices pluviométricos que permitem a agricultura. Lá, levavam o gado para pastar e trocavam mercadorias com os agricultores.

Um dos grupos era o dos soninquês, que ocupavam a área entre os rios Níger e Senegal – entre o Saara e o Bambuque (onde hoje é o Senegal), um local com grandes minas de ouro. Os soninquês eram agricultores que foram se reunindo em vilarejos e, por causa dos ataques de nômades, acabaram por se organizar politicamente. O historiador Alberto da Costa e Silva conta em A Enxada e a Lança – A África Antes dos Portugueses que, com o desenvolvimento dessas aldeias agrícolas do Sael e do comércio que nelas se fazia, nasceu o reino de Gana.

O nome do reino vem da forma com que tratavam seu líder, o gana, “senhor do ouro”. Suas terras eram chamadas de Uagadu e, embora muitas fontes se refiram a Gana como um “império”, a nomenclatura é controversa. Os historiadores que a condenam defendem que impérios têm intenções expansionistas. Não era o caso do Gana, que não estava interessado em aumentar seus domínios. Queria, sim, multiplicar sua riqueza. Nem sequer as fronteiras do reino eram bem definidas. O importante era cobrar impostos e controlar os entrepostos comerciais.

Mais tarde, no começo do século 8, as rotas de comércio que cortavam o deserto já funcionavam a pleno vapor, conectando o Sudão ocidental ao norte da África e ao Egito, fazendo as mercadorias chegarem até o Oriente Médio e a Ásia. Além do ouro, outros produtos nesse comércio eram os escravos e o sal. Os escravos eram capturados em combates e serviam para fortalecer exércitos, para aumentar a força de trabalho e, segundo Costa e Silva, para compor haréns. Já o sal provinha dos depósitos do deserto. Tegaza (hoje no norte do Mali) era o principal deles, controlado pelos berberes, outra linhagem da região. Conchas, pedras, tecidos, cavalos e tâmaras também eram comercializados. “Nas escavações já foram encontradas até porcelanas chinesas”, diz Mônica Lima, professora de História e Cultura Afrodescendente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Apogeu

Quem quisesse levar ouro do Bambuque até o norte africano passava pelo reino de Gana. Assim como quem quisesse levar o sal do deserto para o Bambuque. Os carregamentos engordavam o caixa do rei. Segundo crônica escrita em 1067 por Al-Bakri, geógrafo árabe nascido na Espanha, o rei tinha controle sobre o ouro que entrava e saía do reino para que ele não perdesse seu valor.

As estimativas da quantidade de ouro comercializada do Sudão para o Mediterrâneo variam, mas são impressionantes. A mais modesta fala em 2 toneladas por ano e a maior atinge 9 toneladas. Como comparação, no século 17, Minas Gerais extraía cerca de 1 tonelada por ano. “Para evitar que os povos do norte se aventurassem a explorar a região em busca do metal, os soninquês espalhavam a versão de que o ouro era recolhido por homens com cabeça e rabo de cão”, afirma Alberto da Costa e Silva.

A escassez do sal no Sael fazia com que seu valor disparasse, chegando às vezes a ficar acima do do ouro. Além de importante para a conservação de alimentos, o sal era fundamental na dieta dos povos de regiões áridas por contribuir para a retenção de água no corpo. Assim, enquanto o Gana prosperava com a cobrança de tributos no Sael e com o controle dos entrepostos comerciais, quem mandava no deserto eram os berberes, os “donos” das rotas, dos oásis e das minas de sal.

Os berberes mais poderosos eram da linhagem dos azenegues, cuja influência cobria do Uede Dará (norte) ao Sael (sul) e do oceano Atlântico (oeste) ao Hoggan (leste). De aparência moura, o grupo cobria o rosto com um véu (chamado litham pelos árabes) para evitar o ressecamento dos lábios. Os azenegues, por sua vez, estavam divididos em diversos grupos: os lantas e jazulas se concentravam ao sul do atual Marrocos. Os massufas, nas terras ao sul, os judalas, no litoral, enquanto os lantunas dominavam o Adrar mauritano e o Tagante. Embora cada um buscasse ampliar suas áreas de influência, a convivência entre os soninquês e os berberes azenegues era pacífica. O interesse comum era manter o funcionamento das rotas.

A chegada do islamismo deu-se pela conversão dos berberes, a partir do século 8. Embora as tentativas de influência fossem constantes, os soninquês mantiveram suas crenças. “As conversões se dão quando há um processo de desestruturação e reestruturação. Isso acontece no norte da África quando os muçulmanos controlam a região”, diz Luiz Dario Ribeiro, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Já em povos sedentários, como os soninquês, as crenças oferecem um forte instrumento de coesão social”.

No começo do século 11, no entanto, os lantunas, enfraquecidos por disputas internas, perderam para o Gana a cidade de Audagoste. A conquista permitiu que o reino do Gana atingisse o apogeu, já que a cidade rivalizava em importância com Koumbi Saleh. Curioso o destaque que Al-Bakri faz em sua crônica. Depois de falar sobre os bosques de Audagoste, sobre a abundante água doce, as grandes casas e o movimentado mercado, o espanhol chama atenção para as mulheres de corpos bonitos, com belas nádegas.

Queda do reino

O clima da cidade permitia a agricultura e a criação de bois e cabritos. Entre os produtos de cultivo, os principal era o milhete. “Com ele os soninquês preparavam o asida, um ancestral do cuscuz”, afirma José Rivair Macedo, professor de História da UFRGS.

Foi uma jihad, uma guerra santa, que enfraqueceu o reino de Gana. O líder de um dos grupos dos azenegues, o dos judalas, Yahia ibn Ibrahim, convenceu-se, após uma peregrinação a Meca em 1035, que seu povo não praticava o verdadeiro islamismo. Pediu a um sábio, Abdallah ibn Yacine, que adequasse os costumes dos judalas. O povo não gostou e, após a morte de Ibrahim, fez um levante contra Yacine. Expulso, o religioso foi para um retiro acompanhado de seguidores, que passaram a se chamar almorávidas. E voltaram com tudo. Juntaram um exército e partiram para a jihad em 1042. Outros grupos dos azenegues foram incorporados à guerra. Os almorávidas ganharam muitas terras ao sul do Marrocos – Marrakesh foi fundada por eles nessa época, em 1070 – e acabaram por dominar Koumbi Saleh em 1076.

A partir daí, há várias teorias sobre o que aconteceu com o reino de Gana. A mais recorrente é que os almorávidas teriam convertido os soninquês à força e minado o poder do império. Mesmo com a morte do líder almorávida Abubacar e com os negros retomando a cidade, ela nunca mais teria a influência de antes. Outra teoria, defendida por Alberto da Costa e Silva, é a de que Koumbi Saleh nunca foi conquistada pelos almorávidas. O que houve foi a conversão gradual de Gana ao islamismo – tese reforçada por crônica de 1154, que descreve o reino como o maior do Sudão. Só no começo do século 13, outro povo, os sossos, teria dominado Gana. “Teorias mais recentes apontam para uma decadência gradual a partir do esgotamento das minas de ouro no Bambuque, e alguns ainda defendem que o Mali seria a continuação do reino de Gana”, diz o historiador.

Sosso, Songai e Mali foram reinos que disputaram a mesma região nos séculos seguintes. Os soninquês ainda estão por lá, mas espalhados. Ocupam os territórios dos atuais Mali, Mauritânia, Senegal e Gâmbia.

.:: Aventuras na História

4 comentários:

  1. vixi... deitooo.. se eu estudar aki vou tirar 10 de boa.. vlw Valter..=D

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  2. Incrível seu blog, tem tudo aqui, é difícil de encontrar tantas informações em português sobre a África na Idade Média, mas aqui tem muitas informações úteis!!
    Vlw,
    Amanda

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  3. Incrível estes textos, sou acadêmica em História e estou preparando meu TG e aqui to achando muito coisa pra encrementar meu trabalho.

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