quinta-feira, 10 de junho de 2010

O Reino do Congo em finais do século XV

Este grande reino, bem constituído econômica e politicamente em finais do séc. XV, abrangia um vasto território que se estendia desde uma parte do sul do Gabão, passando pelo sudoeste da República do Congo, por grande parte do sudoeste da República Democrática do Congo, até ao norte de Angola.


Expedição Portuguesa comparecendo perante
o rei do Congo © National Maritime Museum.

“Makukua Matatu Malemb’e Kongo” é uma expressão que, de acordo com a tradição oral, nos leva a entender, que o reino do Congo era um todo composto por três partes distintas: “Makukua”; “Matatu”; “Malemb’e”. O relato de Ana Maria de Oliveira – no seu trabalho de investigação intitulado “Elementos Simbólicos do Kimbanguismo”, saído a público em 1999, através de uma edição da Missão de Cooperação Francesa –, refere-se aos três troncos da termiteira e também às três pedras ao fogo que suportam a panela, o que, em sentido figurado significa: a lareira, a casa materna e, por analogia, o lugar onde se cria, onde se decide, o centro onde tudo começou. Daí que “Makukua Matatu Malemb’e Kongo” pode, em princípio, ser aceite como “as três lareiras, as três pedras de base, as três partes, a trindade que formava o antigo reino do Kongo”. Estas três componentes correspondiam a três áreas geograficamente distintas e bem diferenciadas do ponto de vista sócio-econômico, cada uma delas associada a um dos três descendentes do manikongo (rei do Congo).

O antepassado de todos os Bakongo (a “mãe grande” que a tudo deu início) é “Nzinga”, filha de “Nkuvu”, casada com “Nimi” e de quem teve dois rapazes e uma menina, respectivamente, “Vit’a Nimi”, “Mpanzu’a Nimi” e “Lwkeni Lwa Nimi”. Os três constituíam a base da sociedade do reino do Congo: “Makukua Matatu Malemb’e Kongo”. O nome das três crianças associado ao nome de “Nzinga” representa a linhagem “Tuvila”.
“Vit’a Nimi”, o filho mais velho de “Nimi”, a quem se chamou “Ne Nvunda” era também conhecido por Nsaku, que significa aquele que traça os destinos do Congo. Daí que, deste ramo tenha surgido uma descendência de diplomatas, pois sempre que os “ntotila” tinham necessidade de enviar embaixadas ou missões ao estrangeiro, escolhiam individualidades do ramo “Kisaku”.
O segundo filho, “Mpanzu’a Nimi”, teve uma descendência numerosa. Era por natureza guerreiro. Também um excelente agricultor e um bom conhecedor de minerais.
Lukeni foi a mais difícil de criar. Dai ser também conhecida por “Vuzi”; ou seja, aquela que cria problemas. Era muito bela e desprezava quase tudo o que comia, excepto carne. Casou e teve três filhos, que eram também muito admirados, quer pela sua beleza, quer pelo seu carácter. Cada um destes três filhos de “Nzinga” recebeu uma parcela do território do reino do Congo.
A fronteira de cada área geográfica era delimitada com uma plantação de uma árvore de nome “Nsanda”, que simboliza vitalidade e firmeza.
Nas áreas territoriais pertencentes a um grupo diferente era associado um outro símbolo de referência.

As fronteiras do Reino do Kongo

Mbanza Congo era a capital administrativa do reino do Congo, cujas delimitações, segundo Raphael Batsikama ba Mampuya ma Ndwala, citado por Ana Maria de Oliveira, correspondiam a um espaço territorial “entre o segundo e o décimo terceiro grau a Sul do Equador”, o que equivalia a uma linha imaginária, que ia do Cabo de S. Catarina, no Atlântico, ao ponto de convergência com o rio Cuango. A Ocidente, o reino do Congo estava demarcado pelo Oceano Atlântico e a Este “tocava o país dos Lunda”.
Considerando a actual configuração geográfica angolana, o grupo etnolinguístico Bacongo, que vive essencialmente da agricultura, mas também da pesca (os solongo) e do comércio (os zombo), ocupa as actuais províncias administrativas de Cabinda, Zaire, Uíge e uma parte do Kwanza-Norte e foi o primeiro a ter contacto com os portugueses.

As datas do “descobrimento”

No seu livro, intitulado “Religiões de Angola”, editado em Lisboa, em 1969, pela Junta de Investigações do Ultramar, Eduardo dos Santos diz-nos que está ainda por esclarecer o ano em que o navegador português Diogo Cão chegou à foz do rio Zaire. As dúvidas andam em torno da data (1482) inscrita no Padrão de Santo Agostinho, erguido no cabo de Santa Maria, e dos anos que nos falam João de Barros (1484), Duarte Pacheco Pereira (1484), Rui de Pina (1485), Garcia de Resende (1485), D. Francisco de S. Luís (1485).

As relações de horizontalidade entre o Reino do Kongo e o Reino de Portugal

De acordo com Gerald J. Bender, em “Angola sob Domínio Português”, na costa ocidental de África, os reinos do Benin e do Congo assemelhavam-se ao pequeno reino de Portugal, quanto ao número de habitantes (cerca de um milhão); “noutros aspectos, porém (por exemplo, grau de centralização, controlo político, manufactura de vestiário e artefactos), ultrapassavam talvez o Portugal medievo”. Daí que, as primeiras iniciativas diplomáticas, entre o reino de Portugal e estes dois potentados africanos, se tivessem caracterizado pela procura de uma maior horizontalidade no estabelecimento das suas relações. A comprovar este fato, podemos levar em conta:

- A consagração do baptismo do manicongo Nzinga-a-Nkuvu, a 3 de Maio de 1491, com o nome de João e de sua esposa Mani Mombada, a 4 de Junho desse mesmo ano, com o nome de Leonor, dia em que também foi benzida a primeira pedra para a construção da igreja em Mbanza Congo, dedicada a Santa Cruz;
- Em 1508, D. Afonso do Kongo enviou a Portugal uma embaixada, da qual faziam parte, seu irmão D. Manuel e seu primo D. Pedro, este com o propósito de trazer para Mbanza Congo o modelo de organização do reino português;
- Em 1515 partiu para Lisboa o próprio filho do manicongo Mbemba-a-Nzinga, D. Henrique, para ser educado num seminário, tendo ficado a residir no Mosteiro de Santo Eloi. A 3 de Maio de 1518, D. Henrique recebeu, em Roma, do papa Leão X, o título de bispo Uticense. Posteriormente, voltou a Lisboa, ficando ligado à Congregação de S. João Evangelista do Espírito Santo. Regressou ao reino do Congo e, em 1521, voltou a Portugal e também a Roma, em 1523.
Ainda de realçar o teor de uma das várias cartas de D. Afonso do Kongo ao rei D. Manuel, datada de 31 de Maio de 1515, solicitando que Manuel Vaz ficasse responsável pelas suas mercadorias em Portugal: “Muito alto e poderoso Senhor – Porquanto queríamos mandar alguma nossa fazenda a esses reinos como já temos escrito em outra a vossa alteza para nos prouvemos de algumas coisas assim para que cumpre para nossa fé como para nossa pessoa, rogamos a Manuel Vaz vosso criado que ora cá veio que quisesse tomar cargo de nossas coisas portanto é homem que sempre achamos muito fiel de algumas coisas que lhe mandamos, e a nossa gente toda estar bem com ele e ele nos ter muito bem servido assim lá o que a nós cumpria como cá e por saber o que cumpre para nós melhor que ninguém, e ele nos disse que o não havia de fazer sem vossa alteza lho mandar, pelo qual pedimos a vossa alteza que lhe mande que tome cargo de nossas coisas e nos sirva nisto, porquanto não temos homem nesses reinos de quem confiemos a nossa fazenda senão deste e quando por sua vontade não quiser, mande-lhe vossa alteza por força não que receberemos muita mercê: e nos tornamos ora enviar a D. Francisco e D. Pedro Afonso nossos sobrinhos para pedir esta e as outras mercês que a vossa alteza enviamos, pedir os quais encomendamos a vossa alteza como nossos parentes que são, Nosso Senhor acrescente os dias e estado de vossa real alteza e seu santo serviço. Escrita na nossa cidade do Congo ao derradeiro dia do mês de Maio, João Teixeira o fez de mil quinhentos e quinze anos. El-Rei D. Afonso”.

A contribuição para a criação dos Estados-Nação

A herança cultural do antigo reino do Congo encontra-se, hoje, dividida e subordinada às distintas identidades políticas em Angola, nos dois Congos e no Gabão. Cabe agora aos quatro Estados independentes e soberanos, edificarem, em cada um deles, as suas respectivas nações, onde, evidentemente, os interesses políticos, económicos e sociais se apresentam bem diferenciados uns dos outros, independentemente do legado cultural comum se manter vivo e em permanente interacções com outras culturas africanas e não só, num espírito de respeito e aceitação mútua.
* Ph.D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais.

.:: Jornal de Angola / Blog Os 2 pilares da criação

2 comentários:

  1. Valter, esse teu blog está perfeito! Parabéns. Excelentes artigos. Preciosas informações.

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  2. Valter, esse teu blog está perfeito! Parabéns. Excelentes artigos. Preciosas informações.

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