segunda-feira, 28 de junho de 2010

Monomotapa: O Reino do Ouro

É já na primeira viagem de Vasco da Gama (1497-99), que os portugueses têm conhecimento, mais precisamente em Sofala, que no sertão da costa oriental se esconderiam muitas riquezas, mormente muitas jazidas minéricas. Nesta mesma povoação da costa oriental africana situada no litoral desembocava a rota do ouro vinda do interior. A partir de 1501- 1502, os portugueses iriam entrar no comércio local e Sofala tornar-se-ia o mais importante mercado aurífero da rota oriental. Em 1505 é aqui instalada uma feitoria real e prepara-se a construção de uma fortaleza.


Rinoceronte de ouro.

A descoberta do caminho marítimo para a Índia e a fabulosa riqueza da costa oriental africana seriam então propagadas, na Europa, primamente através dos relatos dos mercadores italianos. E seria já na segunda viagem de Vasco da Gama (1502) que se iriam verificar profundas e decisivas alterações no comércio internacional europeu, visto que as casas comerciais, entre elas as alemãs, vão reagir de imediato a estas novas promissoras. Com efeito, as notícias sobre a cidade de Sofala constituem, para os mercadores alemães, um verdadeiro íman de interesse; para além das tão procuradas especiarias, os nautas tinham trazido, nas suas naus, ouro de Sofala, que tornava o caminho marítimo para Índia um negócio ainda mais rentável. As fabulosas riquezas da África oriental chegariam assim ao conhecimento de Konrad Peutinger, o secretário do Imperador Maximiliano que logo verte para o alemão uma carta de um dos viajantes italianos, testemunho claro do seu grande interesse por esta empresa marítima.

As notícias sobre Sofala não foram, todavia, exclusivamente divulgadas por comerciantes italianos. Assim um mareante flamengo viria a escrever um diário de bordo que, impresso na Antuérpia, constitui uma das publicações mais antigas concernentes às viagens marítimas. Embora não se saiba quem foi o seu autor e, se este terá participado diretamente na viagem, ou se até terá copiado um outro diário de bordo, o certo é que se trata de uma fonte documental da maior importância no que tange às viagens marítimas para a Índia.
Do mesmo teor é ainda uma relação anônima em língua alemã, que atualmente se encontra em Viena. Sobre a segunda viagem de Vasco da Gama conhece-se ainda um outro escrito em língua alemã conhecida pelo nome de relação de Bratislava. Por último poder-se-á ainda referenciar um outro escrito que nos informa sobre o Monomotapa, nomeadamente, o diário de Tomé Pires, texto este, que publicado por Ramusio na sua coletânea, também deve ter sido conhecido, na Alemanha. A constantemente referenciada riqueza de Sofala constitui um dos assuntos primordiais nas relações da Carreira da Índia. Que se contam coisas maravilhosas sobre a mina de Sofala é o que se pode ler, por exemplo, na relação da viagem de Pedro Álvares Cabral vinda a lume, na Alemanha, na célebre coleção Newe unbekanthe landte... em 1508.
Ao interesse por esta cidade e os seus arredores associa-se a necessidade de conhecer o seu hinterland no intuito de recolher informações mais concretas sobre a localização das jazidas de ouro. Já no ano de 1501 se realiza uma primeira expedição de reconhecimento que traria importantes notícias referentes ao comércio aurífero. Estas informações prometedoras, que atuam como um estímulo para a exploração do sertão, aumentam ao mesmo tempo as esperanças de se encontrar o caminho, desta vez, por mar, até ao reino do Preste João das Índias. Vasco da Gama e os seus navegadores souberam, em Moçambique, que este reino cristão já não estaria muito distante e que bastaria procurar no interior da costa oriental.

Mas os portugueses nas suas buscas do mítico rei cristão, encontrariam não o reino do Preste João, mas um outro reino que se dizia ser muito antigo e sobre o qual existiam muitas lendas que falavam em fabulosas riquezas e em grandes montanhas de ouro: o Monomotapa. Contava-se que esta terra era a Ofir da Sagrada Bíblia, pois teria sido aqui, neste reino, que Salomão teria vindo buscar os quatrocentos e cinqüenta talentos de ouro necessários para construir o seu templo - fato que largamente se reflete nos textos portugueses.

A vontade de conhecer este reino lendário levaria à organização de várias expedições, cujo objetivo seria estabelecer relações comerciais diretas com o Monomotapa e a sua terra. Alguns portugueses a quem caberia levar a bom termo esta missão diplomática, viriam a relatar sobre as suas experiências e impressões, como é o caso de Duarte Barbosa. Em 1518, o autor do Livro das Coisas da Índia recolheria as primeiras informações capazes de transmitir uma imagem mais pormenorizada sobre a situação geográfica, bem como as cidades e os habitantes do Monomotapa - Zimbabwe. Este texto que viria a público também através da iniciativa de Giovanni Battista Ramusio, em 1563, teria, graças a este humanista italiano, uma grande divulgação na Europa. Nesta sua sistemática geografia econômica e humana conta que "Entrando in questa terra di Cefala adentro vi è il regno di Benamataxa, che è molto grande e di Gentili, che i Mori gli chiamano Caferes. Sono uomini negri, vanno ignudi, e dalla cintura in giú vanno cpoerti di panni varii colori e di pelli dibesti salvatiche;" e um pouco mais à frente"[...] Benamataxa, dove è molto popolo, il re è solito per lo piú dimorare, e quivi i mercatanti Che vanno a Cefala si forniscono del tanto oro il quale danno ai Mori senza peso per panni dipinti e per paternostri di Cambaia, che fra questi Gentili sono molto usati e apprezzati. E quei della città di Benamataxa dicono Che ancora l' oro viene di luogo molto piú lontano, all' incontro del capo di Buona Speranza, d`un altro regno suggetto a questo re di Banamataxa, il quale è molto gran signore e tiene moltri altri re per suoi sudditi, e molti altri paesi che sono molo adentro fra terra, cosí per mezzo il capo di Buona Speranza come verso Mozambique e piú oltra". Barbosa fala assim de um reino de grandes dimensões, onde o seu chefe poderoso e rodeado de acólitos, o Monomotapa, era dono de largos recursos econômicos.
Estas informações só viriam a ser ajustadas por João de Barros, em 1552, que teve à sua disposição informações, tanto escritas como orais, de autores e viajantes portugueses. Na verdade, com as viagens de reconhecimento os portugueses tinham recolhido amplos dados geográficos e culturais referentes quer à localização concreta deste país quer ao seu sistema de organização e de viver.
João de Barros, para além do importante contributo dado à delimitação geográfica do Monomotapa, aprofunda ainda as origens das antigas minas de ouro e da arquitetura monumental do Zimbabwe, cuja construção totalmente desconhecida e invulgar, suscitava misteriosas explicações sobre os seus construtores, bem como sobre a época em que teria sido construida. Este clima de fascínio, e até de mistério, refletir-se-ia nas descrições dos portugueses, onde se delineia a imagem de um reino cheio de tradições, rico em ouro e passado.
Além disso, um outro elemento contribuiria de uma forma decisiva para o interesse e a atração por este reino: a sua rigorosa estrutura social. Uma autocracia central forte e poderosa, definida pelos autores portugueses como uma sociedade, cuja profunda consciência de justiça determinava a sua maneira de viver. Segundo João de Barros era lícito frisar, em relação ao Monomotapa, que já conheciam uma "certa religião", que se manifestava na veneração dos mortos, no festejo de determinados dias e no reconhecimento de um só deus, a que chamavam "Mozino" (muzimo).

Todas estas particularidades fomentavam o respeito dos autores portugueses por este reino e pelos seus habitantes, significando os contactos estabelecidos com o Monomotapa algo de inovador, dado que aí se encontravam uma região onde se conhecia só um deus superior, uma lei bem definida, bem como uma só ordem social. Assim, e embora tivessem outros costumes bem diferentes dos portugueses, na verdade, como afirma João de Barros: "[...] em alguma maneira parecem que seguem razão de boa polícia, segundo a barbaria dêles". Também Duarte Lopes, na sua relação sobre o Congo, faz referência ao vasto poderio e grandeza do Monomotapa. Assim, quando menciona os reinos vizinhos do Congo alude ao Monomotapa nos seguintes moldes: "O Império do Monomotapa è grande e de gente infinita, gentia e pagã, de cor negra, muito animosa na guerra, de estatura meã, e veloz; e há muitos Reis vassalos de Monomotapa; [...] Tem este Imperador muitos exércitos, e separados nas províncias, divididos em legiões, à usança dos Romanos; porque, sendo grande Senhor, tem necessidade de batalhar continuamente para manter o estado seu. Entre as gentes de guerra, que apontamos, as mais valorosas em nome são as legiões de mulheres, muito estimadas de El-Rei, e o nervo das suas forças militares. Elas queimam com o fogo as tetas esquerdas, por que lhes não sirvam de embaraço ao dispararem as setas, segundo o uso das Antiquíssimas Amazonas, tão celebradas dos Historiógrafos das primeiras memórias profanas". Lopes faz assim menção às legiões de mulheres guerreiras que, já tão exaltadas pelos autores clássicos, se encontrariam também no Monomotapa. E descreve com admiração a desenvoltura destas amazonas na guerra: "Por armas empregam arcos e setas; e são mui desenvoltas e rápidas e robustas e corajosas e mestras no assetear e, sobretudo, seguras e fortes no combater.
Nas pugnas usam de grande astúcia guerreira, porquanto têm por costume de se irem retirando, como em fugida, e mostrando estarem derrotadas; mas voltando-se, todavia, muitas vezes, a investir aos inimigos com os tiros das setas; e, quando vêem que aqueloutros, lisonjeados pela vitória, estão já dispersos, volvendo de repente sobre eles, com grande ardimentos os matam; e por via da sua ligeireza, com emboscadas e outros ardis de guerra, são temidas, grandemente naquelas partes. Têm de El-Rei, emusufruto, certos territórios, onde vivem sozinhas; e, por algum tempo, ajuntam-se com homens, escolhidos por elas, a seu prazer, para a geração; e se parem machos, mandam-nos para as casas deles; e se fêmeas, guardam-nas consigo para as exercitar na guerra".

Tais relatos contribuíam não só para um maior conhecimento deste império, como também para um prolongar de arreigados fascínios. O holandês Jan Huygen van Linschoten alude, de igual modo, entusiasticamente às montanhas do Monomotapa, onde existiriam jazidas de ouro, a que os portugueses dariam o nome de ouro de areia, uma vez que os seus grãos eram tão pequenos como os de areia, mas de famosa qualidade, como não haveria melhor no Oriente.
Os contactos com o Monomotapa, estabelecidos a partir de Moçambique, intensificavam-se de acordo com as crescentes relações comerciais. Mas a presença portuguesa não agradava aos árabes que, durante anos, tinham exercido o controlo e monopólio do comércio local. Em 1560 chegariam os primeiros missionários a esta região, entre eles, o padre Gonçalo da Silveira. O religioso da ordem jesuíta viria a converter o Monomotapa ao cristianismo, bem como a batizar muitos dos seus nobres e vassalos. Mas os arábes não iriam ceder a mais esta influência portuguesa. Estes aconselham o Monomotapa a matar o padre Gonçalo Silveira; com ele iriam encontrar a morte os cinqüenta cristãos que nesse dia tinham acabado de receber das suas mãos o batismo. Os jesuítas não iriam, contudo, deixar de enviar missionários para o Monomotapa e continuar a relatar sobre este tão requestado reino. Assim, o Império do Monomotapa seria conhecido, também na Alemanha, não só como um reino repleto de tradição e de ouro, mas ainda como um dos mais persistentes e intrincados campos de ação apostólica, na África.

Fonte: www.clientes.netvisao.pt

Nenhum comentário:

Postar um comentário