quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Civilização Swahili

As costas africanas do oceano índico são povoadas por uma civilização extremamente rica e complexa, os swahili, conjunto de grupos étnicos articulados por uma língua e uma série de elementos culturais que fundem as tradições africanas, o islã, a cultura indiana, entre outras.




Língua Swahili

No século IX, fundaram cidades pela costa oeste da África, que deram lugar a uma civilização arábe-bantú, a qual desenvolveu um novo idioma: o KiSwahili – também chamado de Swahili.

Tal língua nasceu da mistura entre a gramática bantú (pertencente aos bantos ou povos bantu – povo de raça negra sul-africana) e o vocabulário árabe. Inicialmente, escrevia-se com caracteres arábicos.

A língua bantú tem origem na área da Nigéria e Camarões, na África Ocidental... segundo explicação de um selo alusivo ao Início da Hístória Sul-africana...

A palavra “Swahili” é uma derivação do plural “Sahel” – palavra árabe que significa costa. Bem mais tarde, adaptada ao alfabeto latino, converteria-se na língua mais falada no Leste da África. Portanto, vários povos e tribos, sobretudo do Quênia, Tanzânia e Uganda, chamam a girafa na língua suaíle de twiga.

A língua suaíli, o kiswahili, está entre as mais conhecidas e estudadas línguas do grupo banto, sendo utilizada como língua franca ou veicular na maior parte da África do leste e região central do continente.




É falada como primeira língua na faixa litorânea que se estende desde o sul da Somália, abrangendo todo o litoral do Quênia e da Tanzânia, até parte da região norte de Moçambique, incluindo-se aí as diversas ilhas que se situam no extremo oeste do Oceano Índico (Zanzibar, Pemba, Máfia, Lamu e Comores) e ainda áreas do extremo norte de Madagascar.

É utilizada como segunda língua por outros povos que não os waswahili. Praticamente toda população do interior da Tanzânia fala o kiswahili (graças a uma forte política lingüística), grande parte da população do interior do Quênia (nestes dois países o kiswahili possui o status de língua nacional, sendo que no primeiro é também a língua oficial) e de Uganda. É falada ainda, na parte leste da República Democrática do Congo, Ruanda e Burundi, na porção norte da Zâmbia (fronteiriça à Tanzânia e R.D. Congo), porção norte do Malawi e a região dos Lagos, áreas do extremo sul da Somália e extremo norte de Moçambique, como também áreas no extremo norte de Madagascar.

História




O período compreendido entre os séculos XII e XV da era cristã é particularmente interessante na história das ilhas e da costa oriental da África. Foi a época em que se formou na região uma comunidade étnica cuja melhor denominação seria população "swahili". Foi também a época em que atestou-se plenamente a existência de alguns Estados, cujos primeiros registros datam do século X da era cristã. Outro fato importante é que, nesse período, o desenvolvimento histórico e cultural da África oriental não sofreu qualquer influência externa perturbadora, enquanto o surgimento de conquistadores portugueses no começo do século XVI interrompeu o processo de desenvolvimento, modificando sensivelmente suas condições e características. Como o período também se caracteriza por grande desenvolvimento cultural, é razoável considerarmos que a civilização swahili estava então em seu apogeu, sobretudo se atentar os para a sua subseqüente decadência. No século XII, os Swahili não constituíam uma comunidade homogênea no plano étnico ou social. No plano étnico, sobre um fundo formado por um população de língua bantu, acrescentavam-se elementos do interior do continente e do exterior, tais como árabes, persas e indianos, provenientes da costa setentrional do mar da Arábia e do oceano Indico. No plano social, havia disparidades, na medida em que existia uma classe dirigente isolada e distinta da massa de homens livres. A estrutura formal da sociedade continuava fundamentada em clãs ou grupos étnicos, mas continha elementos de diferenciação por classes. Pois, embora considerados iguais aos outros, os membros da classe dirigente sobressaíam por serem ricos e porque suas funções tradicionais lhes conferiam influência especial. Ao lado da classe dirigente, encontravam-se outros indivíduos que eram ricos, mas não tinham acesso ao poder e à influência atribuída pela tradição, pois sua riqueza se originava do comércio. Gente comum formava a massa da população swahili. Além disso a sociedade swahili, no início do século XII, também incluía escravos, cuja existência é possível supor pela leitura dos autores árabes que descrevem sua exportação. Mas seu papel dentro da sociedade não é claro; pode ser que fossem exclusivamente objeto de um comércio inter- -regional. No fim do século XV, os escravos parecem ter tido função econômica, segundo o relato de um anônimo português que os descreve em atividades agrícolas em Kilwa. A civilização swahili reflete esse processo de diferenciação social; uma cultura tradicional, a do povo, distinguia-se de outra, a da classe dirigente. Mas, devido à falta de fontes, nossos conhecimentos sobre essa civilização são falhos.

A economia e os intercâmbios comerciais

A civilização swahili baseava-se em três atividades econômicas principais: a agricultura, a pesca marítima e o comércio.

A agricultura e a pesca




A agricultura - atividade da maior parte do povo - ao lado da pesca e da coleta de frutos do mar constituíam as fontes essenciais de subsistência da população. AI-Mas'üdi, autor do século X, enumera as seguintes culturas no país: banana, durra (variedade de sorgo), inhame (al-kalari), cóleo (da família da hortelã), coco. Outras fontes falam da cana-de-açúcar e do tamarindo. No século XV, o autor português anônimo citado conta que em Kilwa Kisiwani havia coco, laranjas, limões, várias leguminosas, cebolinha e ervas aromáticas, nozes de areca, várias espécies de ervilhas, milho (provavelmente durra ou sorgo). Também fala da pecuária (gado grande de chifres, ovelhas, cabras) e da cultura do algodão. Essas informações e a descoberta de fusos de terracota atestam a prática da fiação e da tecelagem. No plano agrícola, o coqueiro tinha papel especial para os habitantes da costa oriental da África e das ilhas.




A pesca e a coleta de frutos do mar eram tão importantes quanto a agricultura; são mencionadas pelos autores árabes, que aludem freqüentemente ao consumo de peixes, frutos do mar e moluscos pela população local. Mas o oceano não fornecia recursos apenas para a alimentação. Fontes árabes informam-nos sobre a coleta e a venda de pérolas, conchas, carapaças de tartarugas marinhas, âmbar. O peixe não só era consumido no local onde era pescado como também era vendido, o que leva a supor uma atividade pesqueira em grande escala. Sabe-se que as conchas eram utilizadas para a manufatura de pratos, colheres e colares. De modo geral, os relatos árabes falam dessas atividades em todo o litoral, sem maiores detalhes geográficos. No entanto, em sua descrição de algumas cidades, al-Idrisi faz da pesca a principal atividade de Malindi.

A pesca e a coleta de frutos do mar estarão estreitamente ligadas ao desenvolvimento da navegação em suas duas formas: por um lado, na arte da construção de navios e, por outro, no desenvolvimento das técnicas de navegação, em particular da astronomia. Um estudo dos conhecimentos astronômicos da época mostra, com efeito, que eles só puderam ser desenvolvidos por meio da navegação no oceano Indico; logo, há motivos para se acreditar que os navegadores africanos tenham dado sua contribuição nesse sentido. Pode-se supor que a construção de navios não se limitava à fabricação de mtumbwi (barcos talhados a machado) e de mitepe (almadias costuradas). O autor anônimo português viu no porto de Kilwa muitos navios grandes, cujas dimensões eram aproximadamente as de uma caravela de 50 toneladas; infeliz- mente, não indicou a quem pertenciam. A existência de diversas categorias de navios pode ser indiretamente deduzida do fato de haver, na língua kiswahili, grande variedade de termos para designar "navio" - o que indica, provavelmente, uma diferenciação específica, segundo a utilização que deles se fazia -, além do fato de existir grande número de tipos de embarcação até o início do século xx. Caso essa hipótese seja verdadeira, ela invalida a tese de que os habitantes da África oriental não praticavam o comércio marítimo no oceano Indico.

O comércio e o desenvolvimento da vida urbana

Os Swahili viviam em cabanas de troncos e barro, cobertas de folhas de palmeiras ou gramíneas. Essas cabanas se agrupavam em aldeias ou cidades. B provável que as fontes árabes se refiram a esse setor da população swahili, quando descrevem a caça ao leopardo ou ao lobo, a exploração de minério de ferro para a venda, a arte de enfeitiçar animais ferozes para torná-los inofensivos (por exemplo, para que não atacassem o homem), os cães ruivos utilizados na caça aos lobos e aos leões e um tambor enorme, semelhante a um barril, ao qual os Swahili devotavam um culto e cujo som era assustador. Mas a cultura da costa da África oriental não se resume a isso. Os árabes também nos informam a respeito de outro tipo de civilização existente no litoral: a civilização urbana, mais refinada e ligada ao desenvolvimento do comércio marítimo. As diferenças de nível cultural foram notadas por autores árabes, e Abu'l-Kãsin al-Andalusi indica que, nas populações como as da África oriental, só os habitantes das cidades "extasiam sua alma com o estudo da filosofia". Parece que as cidades constituíam-se essencialmente de cabanas, mas também devia haver construções em pedra, onde moravam os membros ricos e influentes da sociedade swahili. As cidades eram principalmente centros comerciais para onde afluíam mercadorias indígenas e onde aportavam navios estrangeiros. Eram também centros de propagação do Islã. Como as estimativas do valor das mercadorias eram variáveis, o comércio era extremamente lucrativo: não sendo produzidos na região, os bens importados eram objetos de luxo, e aos olhos do comprador adquiriam mais valor do que realmente tinham. Por outro lado, a abundância de produtos preciosos, como o ouro e o marfim, e a certeza de sempre se poder obtê-los faziam com que seu valor diminuísse. Além disso, a posição geográfica vantajosa - praticamente todo o litoral da África oriental faz parte da zona das monções - favorecia a navegação no oceano Indico e possibilitava a existência do comércio naquela parte do mundo. No século XII, supõe-se que as correntes comerciais da África oriental passassem pelo arquipélago Lamu e por Zanzibar. Escavações arqueológicas em Zanzibar mostram que o principal centro de comércio da área era a cidade de Manda, na ilha de mesmo nome, que floresceu nos séculos IX e X da era cristã e continuou ativa até o século XII ou mesmo XIII. Após esse período, a maior parte do comércio começou a passar por Kilwa. A riqueza e o brilho da cidade de Manda podem ser atestados pela grande quantidade de bens importados que lá foram descobertos: cerâmicas islamos-sassânidas, celadons de Hue e esgrafitos. Muitas delas, esmaltadas ou não, lembram as que foram descobertas nas escavações de Siraf. A descoberta de escórias de minério de ferro atesta a existência de fundições. No entanto, é difícil avaliar a importância dessas fundições apenas pelo testemunho arqueológico. Pode ser que as indicações de al-Idrisi a respeito da cidade de Malindi - "O ferro é seu principal recurso e principal objeto de comércio" - dissessem respeito a toda a região e que de Malindi se transportasse o ferro até Manda, cujo bem de exportação mais importante, fonte de riqueza da cidade, era o marfim. AI-Idrisi também descreve outras cidades do litoral e das ilhas, mencionando as seguintes: Marka (Merca), Brava, Malindi, Mombaça, Pangani (EI-Banas) e Ungudja (antigo nome de Zanzibar). Segundo uma nova identificação que parece convincente, a cidade situada após Pangani, com o nome de Butakhna, seria Kilwa. Isso permite supor que Kilwa já existia há algum tempo, mas que ainda não se tornara um dos grandes centros comerciais da costa. Fontes árabes mais antigas também citam Sofala, de onde era exportado o ouro. Comparando-se as informações, é possível localizar esses sítios na região de Kilwa. As pesquisas arqueológicas efetuadas em Kilwa Kisiwani mostram o quadro de uma vida comercial bastante ativa 10. Foram encontrados um grande número de cauris, usados como dinheiro, de cerâmicas de importação, do tipo esgrafito, com decorações incisas em amarelo com reflexos acobreados ou recobertas de esmalte verde-escuro, de objetos de vidro, e, em quantidade menor, contas de vidro, de cornalina e de quartzo, e louça de esteatita de Madagáscar. O principal produto de exportação era o ouro. Em meados do século XII, começou-se a importar da China porcelana song e, em menor quantidade, celadons.Os produtos de importação mais característicos de Gedi eram cerâmicas islamíticas "pretas e amarelas", esgrafitos com decorações incisas amarelas e verdes, e vários tipos de celadons. Gedi e Mogadíscio - que já devia existir - não são mencionadas nas fontes árabes. Malindi e Mombaça eram centros comerciais menos importantes de onde se exportava ferro e peles de leopardo; de Malindi também se exportava peixe.No começo do século XIII, Yãkut escreveu que Mogadíscio era uma das cidades mais importantes da África oriental e que seus habitantes eram árabes muçulmanos que viviam em comunidades. Na época, Mogadíscio exportava ébano e sândalo, âmbar cinzento e marfim. O autor também notou a miscigenação de sua população e mencionou igualmente a existência das cidades de Mtambi e Mkumbulu, na ilha de Pemba."Cada uma dessas cidades tem seu sultão, independente do vizinho. Na ilha há muitas aldeias e cidadezinhas. Seu sultão afirma que é árabe e. que seus ancestrais são originários de Kufa, de onde partiram para vir a esta ilha". Kilwa foi mencionada pela primeira vez com este nome na obra de Yãkut; Yãküt foi também o primeiro a falar da cidade de Mafia, que ele situa não numa ilha, mas no litoral, e da ilha de Tumbatu, em seu relato sobre Zanzibar (Landjuia-Ungudja). Segundo ele, Zanzibar teria sido um Estado independente, e a cidade de Ungudja, centro comercial freqüentado por navios; os habitantes de Tumbatu seriam muçulmanos.Nessa época, Kilwa e provavelmente a ilha de Mafia eram governadas pela Dinastia Shirazi. Em meados do século XIII, assistiu-se à luta entre Kilwa e o povo Shanga, que possivelmente era a população da ilha Sanjo ya-Kati. A causa provável do conflito era a rivalidade pelo domínio das correntes comerciais que passavam pela região. Como atesta a Crônica de Kilwa, esta cidade teria finalmente conseguido a vitória, o que aparentemente teve por conseqüência o desenvolvimento do comércio e da civilização swahili, que remonta ao início do século XIV e coincide com a ascensão ao poder, em Kilwa, de uma dinastia associada ao nome de Abü al-Mawãhib. Naquela época, Gedi continuava a negociar os mesmos produtos alimentícios; como no período precedente, os principais clientes tanto de Gedi quanto Manda eram as cidades persas, principalmente a de Siraf. O volume de mercadorias importadas por Kilwa aumentou sensivelmente. Entre elas encontrava-se grande quantidade de esgrafitos, geralmente verde-escuros, mais raramente amarelos com reflexos verdes; porcelanas chinesas da época song, entre as quais alguns celadons; objetos de vidro, principalmente garrafas e frascos, às vezes ornados com motivos em relevo, e que serviam, provavelmente, para conservar perfumes e quermes (khõl). Os objetos de vidro encontrados em Gedi se parecem, na forma e na decoração, com os encontrados nas escavações de Kilwa. São, principalmente em Gedi, em sua maioria, garrafas e frascos, provavelmente originários do Iraque ou do Irã. Importavam-se cada vez mais louça de esteatita e contas de vidro de Madagáscar, sobretudo três variedades de contas, ornadas com pequenas incisões, e, mais raramente, contas em forma de bastonetes.

O comércio parece ter alcançado o apogeu no século XIV. A fonte mais importante em língua árabe sobre esse período é a obra de Ibn Battuta, que visitou a África oriental em 1332. Ele descreveu Mogadíscio como grande centro comercial; explicou que era costume que o comerciante estrangeiro, ao chegar, procurasse entre os habitantes da cidade um agente de confiança, para tomar conta de seus negócios. Essa prática também é mencionada por Yãkut, mas ele não entra em muitos detalhes. Além dos produtos descritos por Yãkut, Mogadíscio também comerciava seus makdashi, ou seja, "tecidos de Mogadíscio". A rede comercial de Mogadíscio não era a mesma que a das cidades mais meridionais. Assim, os makdashi eram vendidos até no Egito, enquanto do Egito e de Jerusalém vinham outros tipos de tecido. As outras cidades da África oriental não mantinham relações com o Egito ou com a Síria.

No século XIV, Manda já havia perdido sua importância; a de Malindi, Mombaça e outras cidades continuava insignificante. De acordo com as pesquisas efetuadas por H. N. Chittick, foi somente nessa época que a cidade de Patta surgiu, na ilha de mesmo nome.

Os intercâmbios: centros, produtos, quantidade

No século XIV, Gedi começou a importar novos produtos: manteve até meados do século XIV a importação de esgrafitos, pouco a pouco substituídos por cerâmicas verde e azul de esmalte muito fino e brilhante, que aparentemente provinham do Irã. Também encontravam-se entre as mercadorias vários tipos de celadons, de porcelanas brancas e todos os tipos de contas: de barro vermelho, redondas ou alongadas, de cerâmica, de vidro, ornadas com pequenas incisões ou com forma de bastonete etc. O centro comercial mais importante era Kilwa, onde o volume de cerâmica importada tinha aumentado muito. Havia pouca cerâmica islamítica: as mais típicas eram vasos de má qualidade, com desenhos negros e esmalte amarelo-fosco, provavelmente fabricados em Aden, de onde eram importados. Durante a segunda metade do século XIV, apareceram cerâmicas islamíticas monocrômicas, de forma semi-esférica, borda arredondada, com o corpo esmaltado de verde-claro.

Importavam-se cada vez mais porcelanas da China, principalmente celadons, freqüentemente azulados. Encontrou-se grande número de celadons em forma de lótus. A porcelana de barro branco-azulado, de estilo antigo, era mais rara. No entanto, havia muitas cerâmicas chinesas verde-pálidas, com desenhos negros incisos sob o esmalte. Também era maior a quantidade de contas em forma de bastonete, comparada ao número daquelas com incisões; ao mesmo tempo, começaram a surgir contas alongadas azul-cobalto. Os vasos de esteatita deixaram de ser importados, embora, aparentemente, os objetos de vidro continuassem os mesmos. No século XV, encontravam-se em Gedi os mesmos objetos de importação do século precedente, ou seja, cerâmicas islamíticas verdes e brancas, recobertas de fino esmalte brilhante. Pela primeira vez apareceram porcelanas de barro branco-azuladas, cujos motivos são de um estilo característico da época ming, no século XV. A importação de contas de vidro apresentava praticamente as mesmas características do século precedente, mas não se importavam mais tantos objetos de vidro. Geralmente, considera-se o século XV em Kilwa como época de relativa decadência devido às lutas internas pelo poder entre as várias facções da camada superior da sociedade. As importações, porém, continuavam a aumentar, principalmente as de cerâmicas islamíticas monocrômicas, cuja qualidade havia melhorado um pouco. Sua cor ia do verde-azulado ao verde. Havia o dobro de porcelana chinesa que de cerâmica islamítica; aqui também os objetos de porcelana mais difundidos eram celadons e objetos de barro branco- -azulado. Também encontrava-se um grande número de recipientes de vidro, principalmente garrafas. Quanto às contas de vidro, eram quase todas vermelhas, em forma de bastonetes. Os produtos de exportação, como já dissemos, eram sobretudo o marfim e o ouro, além de escravos. (Ibn Battuta descreve razias cujo objetivo era capturar escravos), presas de rinocerontes, âmbar cinzento, pérolas, conchas e, nas regiões setentrionais, peles de leopardo. Outra mercadoria importante, que era em parte importada e, em parte, fabricada na região, eram os tecidos de algodão, que representavam, aparentemente, grande volume na massa de intercâmbios. Sabe-se que no século XV quantidades consideráveis de tecidos de algodão chegavam a Mombaça e a Kilwa, de onde eram reexpedidas para Sofala. Pode-se imaginar a importância dessa mercadoria pelo registro encontrado na Crônica de Kilwa de que a ilha de Kilwa fora comprada, e o preço havia sido uma quantidade de tecido correspondente ao seu perímetro. O comércio marítimo que ligava a costa da África oriental e as ilhas aos países da costa setentrional do oceano Indico favoreceu os contatos entre os habitantes dessas regiões, enriquecendo-os. Essas relações comerciais eram parte de um processo mundial. e constituíam um ramo da grande via comercial que ligava o Ocidente ao Oriente, onde os portos da África oriental não eram terminais, pois outra ramificação conduzia a Madagáscar. Sem dúvida, existia contato entre o litoral e os territórios auríferos do interior, próximos do lago Niassa; dali vinha o ouro que chegava a Kilwa. A partir do século XIV, algumas regiões auríferas de Sofala passaram para o domínio dos sultões de Kilwa, que começaram a nomear governadores para a região. A Antigüidade dos contatos é atestada por descobertas arqueológicas de objetos provenientes do litoral ou até de países não-africanos. G. Caton-Thompson já notara que as contas amarelo-limão descobertas nas escavações do Zimbábue eram parecidas com as contas de vidro encontradas em várias regiões da Índia no século VIII da era cristã. O vidro azul-claro e verde encontrado também no Zimbábue pode ter a mesma origem: parece muito com o vidro da Índia ou da Malásia.

Da mesma forma, o exame atento das cerâmicas locais de Gedi (classes 1 e 2) e sua semelhança com uma das variedades de cerâmica encontradas no Zimbábue permitiram a J. S. Kirkman concluir que existiam relações entre o litoral e os proprietários das minas de ouro no interior do continente. As regiões auríferas próximas do rio Zambeze, no interior do continente e no território da atual República de Zâmbia, foram sem dúvida as primeiras com as quais se estabeleceram relações comerciais, o que pode ser comprovado pela descoberta de cauris que eram trocados por ouro e marfim, em Gokomera e Kolomo.No atual território da República Unida da Tanzânia, na região de Engaruka, as escavações numa aldeia ligada ao comércio permitiram que se descobrisse o mesmo tipo de cauris e de contas de vidro (dos séculos XV e XVI) que as encontradas em Kilwa e outras cidades do litoral.Finalmente, al-Idrisi, no século XII, observou a existência do comércio de caravanas com as regiões do interior. "Como não tinham animais de carga, eles próprios transportavam as mercadorias. Carregavam-nas sobre a cabeça ou nas costas até duas cidades, Mombaça e Malindi, onde vendiam e compravam".

Os primeiros meios de troca utilizados nas relações comerciais foram principalmente os cauris, encontrados em todas as escavações, no litoral e no interior. Aparentemente as contas de vidro e, mais tarde, a porcelana da China também desempenharam esse papel. Nas regiões de comércio mais intenso apareceu um novo meio de troca, na forma de moeda metálica, cujos centros de fabricação parecem ter sido Kilwa e Mogadíscio. De acordo com as pesquisas de G. N. Chittick, as moedas de bronze e prata surgiram em Kilwa com o advento da Dinastia Shirazi, no final do século XII. Ao contrário das moedas de Kilwa, o único exemplar encontrado em Mogadíscio traz a data de 1332. As moedas encontradas no litoral não se distribuíam de forma eqüitativa ao longo da costa. G. S. P. Freeman-Grenville observa que nenhuma foi encontrada entre Mnarani e Kilwa Masoko, e atribui essa ausência à falta de pesquisas arqueológicas na área. Seja por esse motivo, seja por que não se cunhavam moedas e, assim, elas não eram utilizadas na região, o fato é que só foram encontradas nos grandes centros comerciais, em Kilwa Kisiwani e Kisimani Mafia, em Kwa na ilha Djwani, nas ilhas de Zanzibar e de Pemba, além de alguns exemplares no Quênia. A presença de moedas permite supor que o comércio local tenha se desenvolvido sensivelmente na costa e nas ilhas circunvizinhas, tomando necessária a adoção dessa forma de pagamento. As moedas deviam ter um valor de troca maior que o dos cauris, e sua introdução parece demonstrar a importância das operações comerciais. Essa hipótese é confirmada pelo fato de a mercadoria principal de Kilwa ser o ouro, cujo valor intrínseco era muito alto. Por outro lado, a abundância de ouro, considerado como mercadoria, devia ser obstáculo à sua transformação em meio de troca. As regiões onde foram encontradas moedas podem servir como indicação da extensão geográfica do comércio local. Além disso, é provável que a explicação para a ausência de informações sobre o local, a data de cunhagem e o valor nas moedas de Kilwa seja dada pelo fato de que, anteriormente, quando os pagamentos eram feitos em cauris, o que importava era o número de unidades. Grande fonte de lucros, o comércio foi a base da riqueza das cidades do litoral e do desenvolvimento social e cultural da sociedade swahili. Por sua própria natureza, permitiu contatos com várias civilizações, como a árabe, a persa e a indiana. Apesar da enorme quantidade de objetos provenientes da China encontrados nas escavações, este país não participou diretamente do comércio com a África antes do século XV. De acordo com as pesquisas recentes de V. A. Velgus, um dos especialistas mais competentes em fontes escritas chinesas, os navios chineses além de não alcançarem o golfo Pérsico, não ultrapassavam, a oeste e ao sul, as ilhas de Sumatra e Java; não chegavam, portanto, à costa da África oriental. As primeiras indicações da chegada de esquadras chinesas à costa da África oriental datam de 1417-1419 e de 1421-1422; eram comandadas por Cheng-Ho.


2ª Parte -->

Um comentário:

  1. Bem haja!
    Faltam nos palavras para comentar semelhante subsidio a nossa identidade histórico-cultural.
    Abraco

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