sábado, 22 de maio de 2010

A participação africana no tráfico de escravos

O tráfico transatlântico de escravos desenvolveu-se em parte graças à participação dos próprios africanos




Apesar de o tráfico negreiro ser geralmente caracterizado como obra dos países europeus e americanos, os africanos também participaram ativamente dessa atividade. O tráfico exigia uma organização comercial complexa para a venda e o transporte dos escravos. Essa organização encontrava-se baseada nos três continentes do Atlântico. Na África ela concentrava-se nas mãos dos próprios africanos, que determinavam quem embarcava ou não para o Novo Mundo. Isso em nada diminui o envolvimento dos países europeus e americanos no tráfico de escravos, mas revela um lado pouco conhecido da participação africana nessa atividade.

Os africanos escravizavam-se uns aos outros por uma questão de identidade cultural. Ao contrário dos europeus, no princípio do tráfico negreiro, e ainda bem depois disso, os africanos não se reconheciam como africanos. Eles se identificavam de diversas maneiras, como pela sua família, clã, tribo, etnia, língua, religião, país ou Estado. Essa diversidade sugere uma sociedade bem mais complexa do que aquela a que estamos acostumados e designamos por “africana.” Pouco vale distingui-las neste momento. Contudo, deve-se atentar para essa diferença, uma vez que ela ajuda a entender a origem do tráfico de escravos e da escravidão africana no Novo Mundo.


Mercado árabe de escravos.

A escravidão foi uma instituição presente na maior parte do mundo. Na África, ela surgiu antes mesmo da era dos descobrimentos marítimos dos europeus. Desde a antiguidade clássica, escravos negros eram vendidos para os mercados da Europa e da Ásia através do Deserto do Saara, do Mar Vermelho e do Oceano Índico. Eles eram vendidos entre os egípcios, os romanos e os muçulmanos, mas há notícias de escravos negros vendidos em mercados ainda mais distantes, como a Pérsia e a China, onde eram recebidos como mercadorias exóticas. Na própria África, os africanos serviam como escravos em diversas funções, desde simples trabalhadores até comandantes ou altos funcionários de Estado. Portanto, tanto a escravidão como o comércio africano de escravos precederam à chegada dos europeus e à abertura do comércio marítimo com o Novo Mundo.




Com a colonização das Américas, um novo mercado surgiu para o comércio africano de escravos. As plantações de açúcar do Brasil e do Caribe expandiam progressivamente, demandando cada vez mais mão de obra. Contudo, as populações nativas do Novo Mundo, dizimadas em grande parte pelas doenças trazidas pelos europeus, mal podiam atender essa demanda. Os europeus, por outro lado, viam poucos motivos para trabalharem voluntariamente nas plantações de açúcar. As condições de trabalho eram geralmente precárias e pouco gratificantes, de maneira que mesmo prisioneiros ou indivíduos obrigados a um termo de trabalho raramente se sujeitavam a trabalhar nas plantações de açúcar do Novo Mundo. O problema da escassez de mão de obra foi solucionado com o tráfico transatlântico de escravos.

A escravidão na África serviu de base para o desenvolvimento do tráfico transatlântico de escravos. Inicialmente, os europeus organizaram expedições marítimas para capturar e transportar escravos pelo Atlântico. Contudo, os riscos e os custos dessas expedições eram muito altos em comparação aos ganhos. Por isso, decidiram por um método menos agressivo para a obtenção de escravos, adotando o comércio no lugar da força bruta. Os africanos responderam positivamente a essa decisão, uma vez que já estavam longamente familiarizados com o comércio de escravos. A abertura do comércio transatlântico com os europeus proporcionou aos africanos acesso a objetos que eles consideravam como de luxo, e não quinquilharias como geralmente se anuncia. Os africanos rarissimamente venderam escravos por bens de primeira necessidade. A maioria dos objetos importados pelos africanos consistia em bens supérfluos como panos asiáticos e europeus, bebidas alcoólicas, tabaco, armas de fogo, e pólvora.


Cavaleiros Mossi levando reféns.

Havia várias maneiras de um indivíduo se tornar escravo na África. O mais comum, e talvez mais eficiente, era a guerra. Guerras entre vizinhos geralmente produzia um número de indivíduos capturados que poderia ser facilmente vendido na costa como escravo. No entanto, as guerras eram um método de escravização caro, que somente sociedades centralizadas ou estatais poderiam sustentar. Outros métodos de escravização menos dispendiosos e abertos às sociedades africanas descentralizadas incluíam as razias, o endividamento, e o julgamento por crimes ou heresias. Finalmente, em tempos de carestia, havia ainda a possibilidade de escravização voluntária, na qual indivíduos livres entregavam-se à escravidão movidos pela fome, pelo abandono ou por outras ameaças.




O tráfico transatlântico consumiu mais escravos do que qualquer outro mercado da África. Contudo, a demanda por escravos do comércio transatlântico pouco alterou a maneira como os africanos concebiam a escravidão na África. Em geral, os africanos preferiam mulheres como escravas por dois motivos. Primeiro porque as mulheres eram responsáveis pelo trabalho agrícola na maioria das sociedades africanas, e segundo porque eles poderiam tomar essas mulheres por esposas, aumentando assim a sua família e a sua influência política na comunidade local. As crianças também eram consideradas escravos ideais pelos africanos, uma vez que poderiam ser facilmente assimiladas pela comunidade dos seus senhores. Ao contrário, os africanos procuravam se desfazer logo de escravos homens, que poderiam representar um perigo para a sociedade, especialmente em se tratando de soldados capturados em guerras. Nesse sentido, o tráfico transatlântico de escravos contribuiu para aliviar os senhores africanos desse tipo de escravo, já que as plantações do Novo Mundo demandavam mais homens do que mulheres e crianças como escravos.




O tráfico negreiro atuou diferentemente em várias partes da costa africana. Por isso, torna-se difícil de calcular o impacto dessa atividade no continente. Na Baía de Benin e na costa do Congo e Angola, onde o tráfico foi especialmente ativo, o seu impacto é geralmente associado à violência comercializada, a crises demográficas, e à expansão da escravidão na própria África. Em outras partes do continente, as consequências devem ter sido menos severas, apesar da economia externa africana viver hoje profundamente voltada para fora do continente. De toda maneira, o tráfico transatlântico de escravos foi uma atividade na qual os africanos atuaram tanto como vítimas quanto agentes. Talvez, o primeiro passo para se compreender a história dessa tragédia seja reconhecer que até pouco tempo a escravidão era aceita pela maior parte do mundo. Uma prova disso está na ocasião que ora se celebra. O 13 de Maio de 1888 representou o fim da escravidão no Brasil, o último pais a abolir a escravidão nas Américas, apenas cerca de dois séculos atrás. Portanto, seja entre europeus, seja entre africanos, havia poucos fatores que pudessem inibir o desenvolvimento do tráfico transatlântico de escravos.

Autor: Daniel B. Domingues da Silva
Extraído de www.conexaoprofessor.rj.gov.br

11 comentários:

  1. Adorei essa matéria Daniel
    sou negra, trabalho com as questões raciais, e conheço essa parte da história, mas é tão díficil os afro-brasileiros aceitarem essa realidade, é mais fácil culpar somente os europeus, mas sabemos que a viabilizar este comércio partiu dos próprios negro africanos, infelizmente! Não fomos propriamente roubados, fomos negociados pelo nossos irmãos!

    Um Grande Abraço!

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    1. Acima do brasil só os maometanos foram os maiores escravagistas da historia e lá havia as castrações dos homens e nunca houve movimento abolicionista pois a religião legitima o direito de escravizar um Dhimi . Os reis africanos tão venerados aqui no brasil foram os principais responsáveis por esse escabroso e vil comercio e no Sudão exite até hoje .

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  2. só temos que lembrar que alguns estudos nos mostra o quanto era diferente a escravidão européia e a escravidão africana.Na africana a condição de escravo era reversível,e após sair da condição de escravo ,o indivíduo poderia elevar seu nivel social.O escravo não se tornava mercadoria,ferramenta visando lucro ,foi a escravidão mercantil européia que criou essa condição.

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  3. O FATO EH QUE SURGIA UMA NOVA LÓGICA MERCANTIL APARTIR DO SECULO XVI, E MUITOS AFRICANOS SE INSERIRAM NESSE COMERCIO INTERCONTINENTAL E TAMBEM LUCRARAM COM ISSO

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  4. Enfim, uma matéria a respeito lúcida, esclarecedora e inteligente. Devia ser abordada nos meios de comunicação. Provocar debates. Todos foram culpados. A civilização atual só culpam os europeus. Esquecem que até o início do século XX Países Árabes comercializavam negros africanos. Aqui no Brasil, por conta de políticas públicas sociais, os historiadores, sistema educacional e governo jamais vão admitir a participação dos próprios africanos no tráfico negreiro, mesmo sabendo esse lado terrível da história negros contra negros. O tráfico dos negros foi pior do se imagina. Começou na própria cultura africana. Os que pertenciam às classes mais altas e tinham domínio comercial e influência social com os europeus e asiáticos eram quem decidiam quem seriam vendidos. Geralmente, derrotados de guerras tribais.

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  5. Apenas não esquecendo de diferenciar AFRICANOS de NEGROS. Confusão comum!!

    Havia/há vários países de população não negra na africa, como os árabes que escravizaram muitos negros.

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  6. Muito útil e interessante para debater em sala de aula... conhecer a Africa como grande potência continental que, entre outras razões, cometeu suicidio através do intenso tráfico de escravos para as américas... Gostei da imagem de hemorragia, que desmilinguiu a africa como está hoje...

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  7. O verdadeiro inimigo da humanidade, não importando a sua cor, é a falta de democracia que é irmã gêmea do moderno capitalismo.

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  8. A escravidão foi a invenção mais terrível da humanidade, não importa qual seja a cor do escravizado já houve escravos brancos (Alemães) no império Romano. Em 10.000 anos de civilização a escravidão sempre esteve presente conosco, essa grande força só foi derrotada por outra,que agora esta grande, é o moderno capitalismo industrial que precisava de trabalhadores livres para poderem girar a economia, ele se tonou o pai da democracia, essa força esta em constante evolução e também ameaçada por forças contrárias como ditaduras: comunistas,fascistas,islâmicas, Bolivarianas... que tendem todas elas a nos escravizar. VIVA A DEMOCRACIA essa frágil ideia a sobreviver cercada de inimigos.

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  9. O tráfico foi e é a causa de muitos negros espalhados pelo mundo todo, eis aí um dos benefícios, e como consequências a maioria dos países afetados pelo tráfico estão em subdesenvolvimento.

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  10. eu gostaria muito de hoje ter alguma coisa dos meus antepssado para poder conhecer que triste!

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